''''Reputação dos EUA está em frangalhos''''

Lee Hamilton: presidente do Woodrow Wilson International Center for Scholars[br]Ex-deputado afirma que o maior desafio do sucessor de Bush será determinar quando e como intervir em crises internacionais

Entrevista com

Patrícia Campos Mello, Washington, O Estadao de S.Paulo

08 de outubro de 2007 | 00h00

O grande desafio do próximo presidente americano será determinar quando e como os Estados Unidos devem intervir nas crises internacionais. Com o legado desastroso da invasão do Iraque, a reputação do país está em frangalhos. Mas os Estados Unidos continuam sendo o país mais influente do mundo. "Na realidade, não somos a potência onipotente que parecíamos ser em 2003 nem a potência impotente que parecemos ser hoje", diz Lee Hamilton, presidente do Woodrow Wilson International Center for Scholars, conceituado centro de estudos com sede em Washington. Hamilton, de 76 anos, foi deputado democrata por 34 anos. No ano passado, foi o co-autor do relatório do Grupo de Estudos do Iraque, com o ex-secretário de Estado James Baker. O relatório, apresentado como a grande esperança de resolução para o conflito iraquiano, foi ignorado pelo presidente Bush. "Fiquei decepcionado, mas não surpreso", diz Hamilton. Abaixo, trechos da entrevista que Hamilton concedeu ao Estado.Qual deve ser o direcionamento da política externa americana? A política externa dos Estados Unidos tem sido marcada por uma tensão entre idealismo e pragmatismo, e acredito que ela está em sua melhor forma quando combina esses dois direcionamentos. As decisões em política externa são feitas por um grupo reduzido de pessoas - o presidente e seus assessores na Casa Branca - que não têm sensibilidade para o peso de suas decisões sobre os cidadãos comuns.O sr. acha que a política externa deveria ser mais inclusiva? Acho que a política externa não deveria ficar restrita aos altos escalões. As grandes decisões de política externa são normalmente intervir ou não intervir, em geral concentradas no presidente. Nas campanhas presidenciais, precisamos pressionar os candidatos para que falem mais de suas visões de política externa. Quando George W. Bush estava concorrendo à presidência, ninguém fazia idéia de suas opiniões sobre o assunto. Como o sr. vê a imagem atual dos Estados Unidos no mundo?Nossa reputação sofreu muito, mas não acho que isso seja irreversível. A credibilidade dos Estados Unidos nunca esteve tão baixa. No mundo islâmico, obviamente, estamos com índice de popularidade de um dígito, mas também entre nossos aliados tradicionais, na Europa e América Latina, perdemos muita credibilidade, por causa de Guantánamo, Abu Ghraib e etc. Na realidade, não somos a potência onipotente que parecíamos ser em 2003 nem a potência impotente que parecemos ser hoje.Mas dá para recuperar a reputação dos EUA?Certamente. O próximo presidente americano precisa se concentrar em restaurar a credibilidade e o prestígio dos Estados Unidos. E o principal é mostrar às pessoas que estamos ao lado delas na busca pela dignidade. Basta mostrar sensibilidade e compreender o outro lado. Honestamente, não podemos dizer que vamos transformar o mundo em uma grande democracia, uma democracia jeffersoniana. Precisamos voltar a ter uma atitude de buscar nossos interesses, mas também ouvir os outros, como fizemos logo após a 2ª Guerra Mundial.Quais serão os maiores desafios para o próximo presidente dos Estados Unidos em termos de política externa?O maior desafio é a questão da intervenção. E por intervenção eu quero dizer econômica, humanitária, não apenas militar. Ou seja, quando e como intervir em crises ao redor do mundo. Onde o sr. vê crises surgindo ou escapando ao controle?É difícil dizer. Há dez anos, quem poderia dizer que interviríamos em conflitos no Iraque e Afeganistão? O ex-presidente Bill Clinton, quando assumiu, não imaginava que iria agir nos Bálcãs. Pode haver pressão para intervir em Darfur, na Somália, no Congo. No Oriente Médio, sempre estaremos envolvidos.Qual é o candidato presidencial mais capaz para lidar com esses desafios?Não vou responder a esta pergunta.O sr . ficou frustrado pelo fato de o presidente Bush não ter seguido as recomendações do Grupo de Estudos do Iraque, pelo menos não formalmente?Fiquei decepcionado, mas não me surpreendeu. E a principal questão do relatório - como sair de forma responsável do Iraque e adaptar o nível de tropas - tornou-se hoje o foco da discussão pública. O sr. ainda acredita que uma ofensiva diplomática com Irã, Síria e outros países vizinhos é essencial para uma saída honrosa da guerra do Iraque?É necessário ter um grande esforço diplomático, coisa que ainda não vimos. Houve algum diálogo, recentemente a secretária de Estado (Condoleezza Rice) chamou enviados sírios para conversar, mas todos esses passos são modestos. Precisamos de diplomacia agressiva. A América Latina sente-se negligenciada pelo atual governo americano. Como o próximo presidente deve lidar com a região?O próximo presidente dos Estados Unidos precisa passar mais tempo olhando para o Sul, em especial para o Brasil. Bush foi governador do Texas e, se tinha alguma experiência em política externa, era em relação ao México. Mas o foco exclusivo de seu governo foi o Iraque. A América Latina só ganhou importância na agenda de política externa do governo Bush quando se falou em imigração, e a cerca no México logo veio à tona - um tópico que não é exatamente popular.Vários blogs vêm circulando seu nome como possível secretário de Estado em um eventual governo democrata....Já ouvi os rumores, mas estou muito velho pra isso.

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