Jamil Chade / Estadão
Jamil Chade / Estadão

Reservas abertas para 'a pior vista do mundo'

‘Estado’ visita o hotel criado pelo artista Banksy ao lado do muro da Cisjordânia

Jamil Chade, enviado especial / Belém, Cisjordânia, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2017 | 05h00

BELÉM, CISJORDÂNIA - Em seu poema “Passaporte”, Mahmoud Darwish dizia: “E para eles minhas feridas eram uma exibição, para um turista que ama colecionar fotos”. Agora, um hotel quer levar essa realidade a uma nova dimensão, usando o muro construído por Israel na Cisjordânia como base de uma hospedagem cuja finalidade parece ser a de garantir que ninguém durma de consciência tranquila. 

Num dos bairros abandonados de Belém depois que a separação física foi erguida, o empresário Wisan Salsah e o artista Banksy se uniram para comprar e renovar um prédio que, hoje, abriga o que eles mesmos chamam de “o hotel com a pior vista do mundo”. O nome do “estabelecimento” também é uma ironia a um dos hotéis mais luxuosos do mundo, o Waldorf Astoria, de Nova York. Em Belém, porém, ele é simplesmente “The Walled Off Hotel” (O hotel isolado pelo muro, em tradução livre). 

Ao visitar o local, a reportagem do Estado foi recebida pelo dono do hotel, que promete abrir reservas a partir desta semana.

Logo na entrada, um aviso aos visitantes: “Você conseguiu. Bem-vindo à Cisjordânia, um lugar profundamente enraizado na história e no conflito. Agora pode ser um bom momento para escolher um lado. Mas não o faça. O muro é uma mentira. Ele passa a mensagem de que existe uma divisão simples entre as pessoas aqui. Mas não existe. A maioria dos palestinos vive em uma grande desvantagem em relação aos seus vizinhos. Muitos israelenses são contrários à crueldade do muro, mas outros temem profundamente por sua segurança.”

Banksy chamou a atenção mundial para o muro quando, há dez anos, deixou alguns dos grafites que são sua marca registrada em vários trechos da construção. Agora, em todos os cantos do hotel de apenas nove quartos, a ordem é provocar. Não há como se sentir confortável, mesmo com um mobiliário impecável, serviço de primeira qualidade e até luxo. 

A cada detalhe, um recado. No hall de entrada, um piano toca sozinho, enquanto uma das paredes é “decorada” com oito câmeras de segurança fixadas em bases de madeira, como se fossem troféus de caça. Anjos parecem passar por uma turbulência e são pendurados com máscaras de oxigênio de aviões. Na sala de jantar, uma ovelha é “protegida” por um tigre. 

Antes de subir aos quartos, uma pequena exposição conduz os hóspedes pela história da região e a da construção do muro. Não falta nem mesmo uma câmera da imprensa brasileira, alvo de um ataque durante um trabalho na região, exposta em uma redoma de vidro.

Veja infográfico: O modelo israelense

Pelos corredores, no lugar de obras de arte, o hotel traz quadros destruídos, rasgados ou mesmo com grades. Nos quartos, a provocação é constante. Num deles, um palestino e um soldado israelense estão pintados sobre a cama numa guerra – de travesseiros. Numa das janelas, um café está servido, acompanhado por uma flor. A vista é a do muro e de seus canhões de água.

Clausura. Para os orçamentos mais limitados, o hóspede pode pagar US$ 30 para ficar num quarto que imita uma caserna. Seis pessoas dividem beliches e armários de ferro. Existe ainda a suíte presidencial, que deverá ser oferecida por US$ 1 mil. Nem por isso a experiência é mais “leve”. Para o casal que estiver em um clima romântico, o quarto tem uma banheira de hidromassagem que imita as cisternas dos palestinos, que com frequência sofrem com a falta de água. Na parede, um coração vermelho, mas machucado e repleto de arame farpado. Banksy optou por não colocar televisões nos quartos. Num deles, um quadro retrata o que seria a CNN, numa tela quebrada. Em outro, o hóspede tem à disposição um telescópio. Mas a janela dá de frente para o muro. 

Com uma taxa de desemprego de mais de 35%, a cidade de Belém espera que o novo hotel volte a atrair turistas para o local, afetado pela tensão entre israelenses e palestinos. “Desde 2008, tivemos uma queda no número de turistas”, afirmou à reportagem o empresário Salsah. 

O estabelecimento também tem como meta “colocar pressão”. “Banksy foi um dos primeiros artistas a criticar o muro e atacá-lo. Depois que a barreira foi erguida, ela foi em parte esquecida e agora podemos usar o hotel para chamar a atenção do mundo para o fato de que essas divisões não funcionam”, disse o empresário. O artista abriu mão de receber qualquer remuneração pelas atividades do hotel. 

“Estamos vendo um grande país prometer construir um muro e aqui já sabemos o que ele representa”, afirmou Salsah, fazendo referência ao projeto do presidente americano, Donald Trump, que chegou a citar a divisória da Cisjordânia como um “modelo” para a que pretende erguer na fronteira com o México. “Queremos que as pessoas saibam como vivem os palestinos. Cidades viraram guetos. Imagine viver sem poder sair. Não estamos aqui para pedir a manutenção do muro, mas para acabar com ele”, concluiu.

Perfil: Banksy, artista de rua britânico

Arte crítica, misteriosa e de caráter político

Artista de rua britânico, Banksy ficou conhecido mundialmente por seus grafites feitos em estêncil, sua identidade misteriosa – ele mantém o anonimato – e o caráter político de sua arte. Seu trabalho começou a ganhar notoriedade nos muros de Bristol no começo dos anos 90 e, atualmente, suas pinturas valem cerca de US$ 500 mil nas casas de leilão internacionais. Uma de suas imagens mais emblemáticas é “Kissing Coppers”, de dois policiais se beijando, pintada em uma parede de Brighton, no Reino Unido. Em janeiro, o artista teve um de seus grafites apagado em frente à embaixada da França em Londres. O desenho mostrava Cosette, protagonista de Os Miseráveis, chorando em razão da nuvem tóxica proveniente de uma lata com gás lacrimogêneo aberta no chão – uma alusão à força policial usada no campo de refugiados de Calais, na França. Além de violência policial, crises humanas em conflitos e leis anti-imigração, o artista também é conhecido por retratar de forma crítica outros temas como espionagem e excesso de tecnologia e consumo.

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