Ahmad Sahel Arman/ AFP
Ahmad Sahel Arman/ AFP

Resistência anti-Taleban usa coragem e história para se agarrar a 'fiapo' do Afeganistão

Quando o Taleban capturou pela primeira vez Cabul, em 1996, não conseguiu assumir o controle da província do Panjshir; agora, força de resistência amadora tenta evitar que insurgentes se apoderem da última fatia do país

Sudarsan Raghavan, Ezzatullah Mehrdad e Haq Nawaz Khan, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 20h00

Zaki esteve entre os milhares de afegãos que fugiram para as montanhas escarpadas ao norte de Cabul logo após a rápida conquista do país pelo Taleban, temendo a brutalidade e as regras severas dos extremistas islâmicos. Agora, aos 27 anos, o ex-funcionário do governo de empunha uma AK-47 na última linha de frente militar do Afeganistão.

Com formação universitária, o civil que se tornou guerrilheiro de uma força de resistência amadora e determinada a evitar que o Taleban se apodere da última fatia do Afeganistão que os milicianos ainda não dominaram: a acidentada província de Panjshir.

"Não queremos ser cidadãos de segunda ou terceira categoria", disse Zaki, que falou sob a condição de que seu nome completo não fosse divulgado por temer represálias do Taleban contra sua família em Cabul. "Não queremos perder a nossa liberdade e o nosso sorriso".

Nos últimos quatro dias, o Taleban pôs o alvo em Panjshir, atacando de várias direções e se envolvendo em confrontos ferozes com as forças de resistência. É o desafio mais sério que o Taleban enfrentou na campanha militar em que varreu o Afeganistão no mês passado, um relâmpago que viu Cabul e 33 capitais provinciais caírem em dez dias.

Ambos os lados dizem que infligiram pesadas baixas no campo de batalha e reivindicaram sucessos. E ambos estão usando as redes sociais para espalhar desinformação.

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Apesar do controle da resistência sobre a maior parte da província, ainda não está claro se ela ganhará força ou será rapidamente esmagada pelo ressurgimento do Taleban, cujas forças na noite de quinta-feira pareciam estar avançando sobre algumas regiões de Panjshir.

A violência explodiu depois que fracassaram na semana passada os esforços para negociar um acordo de divisão do poder com os líderes da resistência.

"A mentalidade do Taleban não é inclinada para negociações, nem para a paz", disse Ahmad Wali Massoud, ex-embaixador afegão na Grã-Bretanha. "Eles acham que capturaram o Afeganistão e, portanto, Panjshir deve se render. Mas as pessoas que lutam estão lá querendo defender sua pátria, seu território, suas famílias e suas vidas. O que está acontecendo em Panjshir é uma resistência para todo o Afeganistão".

Para o Taleban, o levante é uma espécie de déjà vu indesejável, que chega no momento em que os milicianos formam um governo e buscam legitimidade internacional. Quando o Taleban capturou pela primeira vez a capital afegã, em 1996, e controlou o país até 2001, seus combatentes nunca conseguiram assumir o controle de Panjshir, apesar das muitas tentativas.

A resistência na época era liderada pelo irmão de Massoud, Ahmed Shah Massoud, um comandante mujahideen conhecido como o “Leão de Panjshir”, que ajudou a expulsar os soviéticos na década de 1980. Ele foi assassinado por membros da Al-Qaeda dois dias antes dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos.

Hoje, os guerrilheiros, conhecidos como Frente de Resistência Nacional, são liderados por Ahmad Massoud, de 32 anos, filho de Ahmed Shah Massoud. Ele estudou na Grã-Bretanha, inclusive na Royal Military Academy de Sandhurst, mas não tem experiência no campo de batalha.

O jovem Massoud enfrenta um cenário militar e geopolítico muito distinto. O Taleban supera numericamente suas forças, é muito superior em termos militares e está repleto de armamentos de fabricação americana apreendidos do antigo exército do governo, cujas tropas se renderam em massa aos milicianos que avançavam.

Ao contrário de seu falecido pai, que recebeu extensa ajuda militar dos Estados Unidos e de outras potências ocidentais, Massoud não recebeu nenhum apoio internacional, particularmente de uma Washington humilhada pelo resultado de vinte anos de guerra contra o Taleban.

O Massoud pai também contava com rotas de abastecimento do vizinho Tajiquistão para apoiar seu exército guerrilheiro. Desta vez, o Taleban controla todas as províncias da fronteira norte e consegue bloquear as rotas de abastecimento.

Apesar dessas desvantagens, os líderes da resistência dizem que têm a geografia a seu lado. Panjshir é uma vasta região montanhosa cuja extremidade sul fica a cerca de 160 quilômetros a nordeste de Cabul. Aninhada nas montanhas Hindu Kush, está repleta de ravinas estreitas e formações rochosas que criam um baluarte natural contra invasores e um ambiente perfeito para emboscadas e guerra de guerrilha.

“Nossa posição estratégica é estar em Panjshir”, disse Ali Nazary, chefe de relações exteriores da Frente de Resistência Nacional. “Panjshir é uma fortaleza. O terreno não é amigável para quem quer invadir”.

Ele disse que os soviéticos foram repelidos nove vezes quando tentaram tomar a região nos anos 1980. E, na década de 1990, acrescentou ele, o Taleban tinha uma vantagem militar ainda maior, porque contava com lançadores de foguetes, mísseis scud e jatos para bombardear os rebeldes, mas nunca conseguiu tomar a província.

As forças de resistência, disse Nazary, somam cerca de 10 mil combatentes, entre os quais se encontram grupos locais e moradores de Panjshir, juntamente com voluntários de outras províncias. Um número significativo de ex-soldados do exército afegão, combatentes de forças especiais e comandantes também se juntaram à resistência, disse ele.

Foi o que fez Amrullah Saleh, o ex-vice-presidente do país, que chegou a Panjshir logo depois que o presidente Ashraf Ghani fugiu quando o Taleban entrou em Cabul. Saleh afirma que ele é o legítimo líder do Afeganistão e encorajou seus seguidores a vir a Panjshir e se juntar à resistência. Alguns combatentes, como Zaki, são civis que se transformaram em guerrilheiros.

Zaki disse que duas décadas de apoio ocidental ao Afeganistão lhe permitiram frequentar a universidade e ver os benefícios de uma sociedade com liberdades e direitos básicos. E, por ser da etnia tadjique, acrescentou, ele está preocupado com a possibilidade de o Taleban, majoritariamente pashtun, atacar outras minorias.

"Fui para a universidade e aprendi a liberdade", disse ele. "É um dever histórico meu. O Taleban está promovendo agendas étnicas".

Mesmo enquanto seus combatentes entram em conflito com o Taleban, o jovem Massoud e seus principais assessores insistem que preferem o diálogo para chegar a um acordo de divisão de poder. Eles querem um sistema descentralizado e federal de governança em que o poder seja igualmente distribuído entre os diversos grupos étnicos do Afeganistão.

"Qualquer coisa menos do que isto será inaceitável para nós e continuaremos nossa luta e resistência até alcançarmos justiça, igualdade e liberdade", disse Massoud à revista Foreign Policy esta semana, em entrevista por e-mail. O Taleban rejeitou essas exigências e deve anunciar um novo governo que parece seguir o modelo da teocracia do Irã, com importantes líderes religiosos e militares do Taleban em posições-chave.

Na quinta-feira, Muhammad Bilal Karimi, porta-voz do Taleban, disse que os milicianos ainda queriam "resolver a questão por meio de negociações pacíficas, mas, se houver necessidade de meios militares, não demoraremos muito para capturar essa área. Panjshir está cercado por mujahideen de todos os lados, e não demoraremos muito para derrotar os inimigos".

Nazary disse que as forças de resistência estão prontas: "Se eles vão usar a agressão, então vamos usar a força. Os últimos quatro dias mostraram que somos capazes de usar a força".

O Taleban está empregando várias táticas para quebrar a resistência. Em Cabul, combatentes do Taleban estão revistando casas em pelo menos três bairros habitados principalmente por tadjiques, em busca de suspeitos de ter ligações com a resistência, disseram duas fontes.

"O Taleban prendeu dez pessoas hoje", disse um ativista da sociedade civil, que falou sob condição de anonimato por questões de segurança.

Os milicianos também cortaram o serviço de telefone e internet, bem como o acesso a outros serviços básicos em regiões de Panjshir. "Os combatentes do Taleban bloquearam os alimentos e cortaram a eletricidade", disse Ahmad Hashimi, escriturário local em Panjshir, em entrevista por telefone. "As pessoas estão sem todos os serviços básicos, incluindo gás". Mas Ahmad Hashimi disse que ele e outros moradores locais continuam impassíveis. "Os atos desumanos do Taleban não farão as pessoas se curvarem", disse ele. / Tradução de Renato Prelorentzou

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