Resistência pacífica cresce entre palestinos

''Intifada branca'', com boicote de produtos de assentamentos israelenses, amplia-se como alternativa a confrontos e ataques violentos na Cisjordânia

Nathalia Watkins, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Em uma das regiões mais conturbadas do mundo, formas menos violentas de resistência à ocupação israelense vêm ganhando força e atraindo grandes ícones pacifistas. Depois da visita de Rajmohan Gandhi, neto do líder da independência indiana Mahatma Gandhi, dias atrás foi a vez de Martin Luther King III, filho do ativista pelos direitos civis nos EUA, transmitir sua mensagem à região.

"Israelenses e palestinos têm grande potencial para mostrar ao mundo onde ocorrerá o próximo grande caso de não-violência" disse o filho do ativista Martin Luther King Jr. em uma conferência sobre a resistência pacífica realizada em Ramallah.

Os palestinos têm buscado formas alternativas de resistência à ocupação israelense. Outdoors de 20 metros de comprimento com o desenho de um dedo apontado e a mensagem "Sua consciência, sua escolha" foram espalhados pela Cisjordânia, como parte de uma campanha de US$ 2 milhões que visa a mobilizar a população palestina contra a compra de bens provenientes de colônias judaicas. Os palestinos, assim como boa parte da comunidade internacional, consideram esses produtos ilegais.

"Temos de dar ao cidadão comum a opção de mostrar sua objeção à ocupação de maneira não-violenta e produtiva. Retirar da geladeira produtos provenientes das colônias é uma delas", afirma Hitham Kayali, coordenador do Fundo Karama de Autonomia Nacional, responsável pela campanha.

"Nós ensinamos como reconhecer produtos dos assentamentos, que muitas vezes são camuflados como produtos israelenses - estes continuam sendo legais e bem-vindos", afirma Kayali. A meta é eliminar a circulação das cerca de 200 marcas de produtos provenientes de colônias judaicas até o fim do ano.

Nas ruas, nota-se o apoio à iniciativa, apesar das dúvidas sobre sua viabilidade e eficiência. Maher Hamed, dono de uma loja de sucos no centro de Ramallah, diz que a medida não leva em conta as necessidades locais. "Infelizmente, estamos enjaulados na Cisjordânia e dependemos de Israel para tudo, desde água e eletricidade até o fornecimento das frutas que eu vendo", conta.

Os poucos meses da campanha ainda não tiveram reflexos na economia palestina. Mas, em Israel, o boicote é tido por muitos como prejudicial aos próprios palestinos. "Tínhamos boas relações com nossos vizinhos palestinos. Cerca de 2 mil são empregados em nossas indústrias. Caso o incitamento contra nossos produtos não seja suspenso, demitiremos os funcionários palestinos", diz Benny Kashriel, prefeito de Maale Adumim, assentamento nos arredores de Jerusalém que possui 3,8 mil habitantes.

Ao contrário do boicote aos produtos de colônias, que conta com a fiscalização da Autoridade Palestina, os esforços para conter o trabalho de palestinos em assentamentos não preveem punição. Entre 25 e 30 mil palestinos trabalham ilegalmente na Cisjordânia ocupada. "Apesar de realizarmos campanhas contra a atividade, ainda não temos alternativas para oferecer aos trabalhadores", constata Ghassan Khatib, porta-voz da Autoridade Palestina.

"Não incentivamos a violência, mas entendemos os motivos de quem a pratica", alega Mohamad Hatif, diretor do Comitê de Coordenação da Resistência Popular. Para ele, os protestos não são violentos por definição, mas "os organizadores não podem se responsabilizar por atividades individuais".

PARA ENTENDER

Intifadas violentas vêm desde 1987

A primeira intifada palestina, nos anos 80, começou no campo de Jabalia e espalhou-se por Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Deixou mais de mil palestinos e 164 israelenses mortos. A segunda revolta, em 2000, multiplicou por cinco o número de vítimas. Em 2008, o Hamas convocou uma nova intifada, que seria conduzida por homens-bomba, mas a revolta não se generalizou.

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