Responsável por tesouros do Egito cai em desgraça

Ministro de Antiguidades sofre pressão por laços com Mubarak

Kate Taylor, The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2011 | 00h00

Até recentemente, Zahi Hawass, ministro das Antiguidades do Egito, foi um símbolo global do orgulho nacional egípcio. Um famoso arqueólogo, usando chapéu estilo Indiana Jones, Zahi parecia invulnerável por causa das medidas bem sucedidas para ampliar o turismo no país, seus esforços para reaver objetos perdidos e sua proximidade com a primeira-dama Suzanne Mubarak.

Mas a primavera árabe mudou tudo. Hoje, manifestantes no Cairo exigem a renúncia dele, ao mesmo tempo em que o governo interino enfrenta multidões de desafetos na Praça Tahrir. A queixa principal dos manifestantes é a associação de Zahi com a família Mubarak, que ele defendeu nos primeiros dias da revolução. Mas eles também chamam a atenção para o modo como ele vem se projetando no decorrer dos anos, quase sempre com a ajuda de organizações e companhias com as quais realiza negócios como autoridade do governo.

Por exemplo, Zahi recebe anualmente US$ 200 mil do canal National Geographic como explorador honorário, mesmo que esteja sob seu controle o acesso aos sítios arqueológicos que ele apresenta em suas reportagens.

E ele se relaciona - embora diga que não ganha com isso - com duas empresas americanas que realizam negócios no Egito.

Uma delas, a Arts and Exhibitions International, há sete anos obteve autorização de Zahi para transformar um dos mais preciosos tesouros do país, peças relacionadas ao faraó Tutancâmon, numa exposição itinerante; e os executivos da empresa lançaram um empreendimento separado para comercializar uma linha de roupas com a grife Zahi Hawass. Uma segunda empresa, a Exhibit Merchandising, vende réplicas do chapéu de Zahi Hawass há vários anos. No ano passado, a companhia foi contratada para operar uma nova loja no Museu do Cairo.

Zahi diz que sua parte nos lucros com a venda desses produtos vai para instituições beneficentes. Mas as duas instituições, o Hospital do Câncer Infantil, e um Museu para Crianças, eram dirigidas por Mubarak antes da revolução, o que deixou muita gente irritada.

"Não sabemos como os egípcios viveram todo este tempo sob este governo e estas pessoas", disse Entessar Gharieb, locutor de rádio formado em arqueologia, que ajudou a organizar uma manifestação exigindo a saída de Zahi. "Ele faz parte do sistema de Mubarak."

Surpreendentemente, apesar dos laços com Mubarak, Zahi conseguiu manter seu posto no governo após a revolução. Ele viaja muito, como embaixador cultural, elogiando a revolução e incentivando os estrangeiros a visitar o Egito. Este mês, foi homenageado pelo Peru por ter ajudado os peruanos a reaver objetos roubados de Machu Picchu há quase um século.

Perseguição. Zahi vem sendo acossado em seu país, com notícias nada favoráveis nos jornais e na TV. A loja do Museu do Cairo precisou ser fechada após uma disputa envolvendo problemas na licitação, que quase o colocou na prisão. E uma queixa foi apresentada à promotoria egípcia, sobre os negócios de Zahi com o National Geographic e outros negócios.

"Jamais fiz alguma coisa contrária à lei egípcia", disse ele numa resposta por e-mail a perguntas feitas. "A lei permite que empregados do governo aceitem honorários e comissões por meio de contratos firmados fora da administração."

As acusações contra Zahi são muito menos graves do que as formuladas contra outras autoridades do governo, mas elas mostram o quão rapidamente a situação mudou. "Acho que ele terá de entender que há uma nova maneira de fazer negócios, ou pelo menos tem de haver", disse Michael C. Dunn, editor do Middle East Journal, uma publicação acadêmica.

Foi em 2001 que o National Geographic apresentou pela primeira vez Zahi Hawass como explorador honorário, um dos 16 que o canal tem em todo o mundo. Na época, ele era diretor das pirâmides de Giza. Zahi apareceu em numerosos filmes do canal sobre o Egito antigo, e a organização publica alguns dos seus livros e organiza suas conferências, que ele profere cobrando US$ 15 mil.

Não se sabe se os pagamentos feitos pelo National Geographic se comparam ao seu salário no governo, que ele não revela. O canal de TV diz que ele ganha pela assessoria que presta no caso de grandes descobertas e na elaboração da sua política para assuntos ligados a sítios antigos.

Segundo Zahi, sua imparcialidade ficou evidente quando o Discovery Channel venceu o National Geographic numa licitação para produção de filmes sobre pesquisa de DNA em múmias reais. Na semana passada ele anunciou que interromperia temporariamente seu papel de explorador do National Geographic para se concentrar na proteção das antiguidades do seu país. Quando terminar a exposição itinerante de objetos de Tutancâmon, em 2013, o Egito terá recebido quase US$ 100 milhões. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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