Resposta a cólera no Haiti foi 'inadequada', diz Médico Sem Fronteiras

Epidemia já matou quase 1,2 mil pessoas; organização diz que é preciso agir de forma rápida.

BBC Brasil, BBC

20 de novembro de 2010 | 10h27

Vítimas de cólera precisam receber tratamento rapidamente

A resposta à epidemia de cólera que já matou quse 1,2 mil pessoas no Haiti foi "inadequada", segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).

A MSF diz que apesar da enorme presença de agências humanitárias no país, necessidades básicas ainda não estão sendo atendidas.

A organização pediu ação imediata para a construção de latrinas, acesso a água limpa e a remoção de corpos das ruas, além de dizer que é necessário que a população seja informada de que a doença é tratável.

O cólera causa diarreia e vômito, levando à desidratação aguda. A doença pode matar rapidamente, mas é facilmente tratada com antibióticos e hidratação.

Segundo dados do Ministério da Saúde do país, o total de pessoas mortas pela epidemia que começou no mês passado já chega a 1.186.

Segundo o chefe da MSF no Haiti, Stefano Zannini, seus médicos já trataram mais de 16,5 mil pessoas com a doença, mas "não há uma resposta eficiente e real de outras organizações".

"Isso é alarmante no sentido em que ainda não chegamos ao pico, isso ainda pode levar um tempo, então o número de pacientes ainda pode aumentar", disse ele.

"Não há tempo para reuniões e debate - a hora de agir é agora."

Violência

Alguns haitianos culpam soldados nepaleses das tropas de paz da Nações Unidas pelo surgimento da doença, já que o cólera - que é endêmico no Nepal - era desconhecido no Haiti.

Segundo a MSF, é necessário tranquilizar a população, informando os habitantes de que a doença é de baixo risco e que é beneficial que haja centros de tratamento perto de onde as pessoas vivem.

A organização também diz que é essencial ter água clorada, sabão, latrinas e depósitos de lixo urgentemente.

As agências das Nações Unidas dizem que seu trabalho está sendo prejudicado pelos violentos protestos dos últimos dias.

Na quinta-feira, a polícia lançou gás lacrimogêneo contra manifestantes quie montavam barricadas e jogavam pedras contra veículos da ONU. Confrontos na segunda-feira deixaram dois mortos.

"Se a situação continuar assim, mais e mais pacientes que precisam desesperadamente de tratamento podem morrer e mais e mais haitianos que esperam medidas preventivas podem acabar vítimas da doença", disse Edmond Mulet, chefe da missão da ONU no Haiti.

Os protestos no Haiti contra as forças de segurança da ONU, responsabilizadas por alguns grupos pela epidemia de cólera que atinge o país, se espalharam nesta quinta-feira pela capital do país, Porto Príncipe.

A polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes, que montaram barricadas e atiraram pedras em veículos das Nações Unidas.

Na segunda-feira, confrontos entre haitianos e tropas da ONU no norte do país deixaram duas pessoas mortas.

As manifestações ocorrem menos de duas semanas antes da eleição presidencial, marcada para o dia 28 de novembro.

Alguns haitianos vêm responsabilizando membros nepaleses das forças da ONU de levar a cólera ao país, o que é negado pela organização.

Mortes

Casos de cólera já foram identificados em todas as dez regiões do Haiti. Cerca de 1.100 pessoas já morreram em consequência da doença no último mês.

No total, ao menos 17 mil casos da doença já foram registrados no país.

A maioria das 38 mortes registradas na capital ocorreram na favela Cité Soleil.

Nesta quinta-feira, tiroteios esporádicos podiam ser ouvidos, após os manifestantes tomarem as ruas de Porto Príncipe.

Centenas de jovens ergueram barricadas colocando fogo em pneus e atacaram veículos da Minustah, a missão da ONU no país.

Os manifestantes gritavam slogans como "Cólera, foi a Minustah que nos deu" ou "Minustah, volte para casa".

Condições sanitárias

Segundo o Centro para Controle de Doenças Infecciosas (CDC), baseado em Atlanta, nos Estados Unidos, cerca de 1,3 milhão de haitianos ainda vivem em campos de desabrigados após o terremoto de janeiro, dificultando o acesso a água potável, condições sanitárias e atendimento à saúde.

De acordo com o CDC, mesmo antes do terremoto, apenas 17% dos haitianos tinham acesso a condições sanitárias adequadas.

Em sua última análise sobre a situação no país, o centro disse que era "difícil prever" a evolução da doença, já que esta é a primeira epidemia de cólera no país em mais de um século.

Os primeiros casos da doença, transmitida por meio da água ou comida contaminada, foram registrados na região do rio Arbonite, no norte do país.

Ainda não está clara a origem dos primeiros casos da doença no Haiti. Alguns grupos dizem que ela teria vindo de tanques sépticos de uma base das forças nepalesas da Minustah, mas a ONU diz não haver evidências sobre isso.

O cólera provoca diarreia e vômitos, levando a uma grave desidratação. A doença pode matar rapidamente, mas é tratada facilmente por meio da reidratação e de antibióticos.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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