Resquícios de arcaísmo na Índia moderna

Os indianos mudaram seus hábitos de consumo e fizeram do país uma potência, mas mantêm preconceitos de casta, tradições opressivas e desigualdades históricas

Akash Kapur, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE

De acordo com todos os critérios, S. Durairaj é um homem moderno. Ele dirige um carro, usa o celular e acompanha o noticiário internacional. No tempo livre, estuda para obter um diploma de Direito. Ele pretende seguir a carreira de advogado. No entanto, há alguns anos, quando o sr. Durairaj (que trabalha para mim por meio período como motorista) descobriu que a irmã planejava se casar com um membro de uma casta diferente, ele e os pais cortaram os laços com ela. A moça mora atualmente numa casa separada com o marido e seus dois filhos. As crianças mal conhecem os avós maternos.

A distância costuma proporcionar um maior entendimento. Recentemente, passei um tempo nos Estados Unidos, longe de casa, e isso fez com que eu pensasse mais sobre as mudanças na Índia nas últimas duas décadas. Sob muitos aspectos, ela hoje se parece mais com os EUA - é mais otimista, extrovertida, confia mais no próprio potencial e demonstra mais claramente suas ambições.

A Índia tornou-se também mais materialista, entregando-se a uma orgia de consumismo e endividamento nos moldes americanos. Em qualquer pequena cidade, há um desfile de lojas de marcas, bares e restaurantes mantidos em funcionamento por uma nova geração armada com cartões de crédito.

Nem todos aprovam tais mudanças. Mas é inegável que a adoção do capitalismo pelo país representa uma notável reversão da austeridade que definiu a Índia durante a maior parte de sua história após a independência. Para melhor ou pior, parece razoável afirmar que, como o sr. Durairaj, a Índia virou um país mais moderno: atém-se menos às conquistas de sua civilização antiga, e olha com orgulho e expectativa para os sucessos futuros de um século que muitos creem estar destinado aos indianos.

Quando eu era menino, a Índia parecia um país isolado. Hoje, somos uma potência mundial, e os interesses e atos dos indianos ajudam a definir a condição global contemporânea.

Mas será que a Índia é de fato um país moderno? No livro Mistaken Modernity (Modernidade Equivocada), publicado há dez anos, o sociólogo Dipankar Gupta queixou-se da "ocidentoxicação" da elite indiana (ele emprestou o termo do intelectual iraniano Jalal Al-e-Ahmad). Gupta referia-se a uma versão superficial da modernidade que estaria se enraizando no país - definida mais pelos hábitos de consumo e estilo de vida dos ocidentais do que por um conjunto de valores cosmopolitas e por normas democráticas.

Ele destacou, por exemplo, a persistência dos preconceitos de casta, das tradições opressivas e das desigualdades históricas num país em que o número de lares com máquinas de lavar, carros e outros aparatos do capitalismo global estava aumentando. Ele defendeu que, sob muitos aspectos, a Índia não era um país moderno.

As coisas mudaram muito desde que Gupta escreveu o livro. Mas a Índia ainda é um país em que boa parte da população vive em condições quase medievais, submetida a uma pobreza brutal. Em junho, o jornal The Asian Age publicou uma reportagem dizendo que, todos os anos, ocorrem no país cerca de mil assassinatos cometidos em nome da "preservação da honra", muitos deles sendo o resultado de hostilidades nascidas de casamentos entre membros de diferentes castas.

Em muitos lares, meninas são tratadas como um risco pelos pais - recebem menos alimento do que os irmãos, são tiradas da escola mais cedo, têm de aceitar tarefas dignas de servos para começar a contribuir com o dote que um dia seus pais terão de pagar. Algumas casas de chá do interior do país ainda mantêm conjuntos de xícaras distintos para seus fregueses - um para os dalits (antes chamados de intocáveis) e outro para as castas superiores, que temem ser contaminadas se dividirem suas xícaras com os dalits.

A persistência de normas tão antiquadas não exclui a Índia do grupo de países modernos, é claro. A modernidade é uma condição complicada, que dá amplo espaço para a permanência do velho dentro do novo. O velho pode também ser transformado em algo moderno. Mohandas Karamchand Gandhi é muitas vezes visto como um tradicionalista, mas é bom lembrar que seu projeto envolvia a modernização do hinduísmo pela extinção das castas e outras formas de opressão.

A questão é que a modernidade possui muitos níveis, e é definida mais por um estado de espírito do que pela lealdade às tendências contemporâneas de consumo. Como expressou o filósofo alemão Theodor Adorno, "a modernidade é uma categoria qualitativa, e não cronológica". Talvez a questão não seja se a Índia é ou não um país moderno, e sim qual seria a forma assumida por esta modernidade.

Alguns estudiosos (com Benjamin Friedman, autor de As Consequências Morais do Crescimento Econômico) sugeriram que o desenvolvimento econômico é muitas vezes acompanhado por um maior grau de tolerância e comprometimento com a democracia. Sem dúvida, há sinais do avanço de um processo assim na Índia. Mas, muitas vezes, o crescimento do país parece ter produzido antes de mais nada uma corrida pela aquisição material que pouco tem a ver com democracia.

Os próximos anos devem ser marcados por uma espécie de gangorra entre estas duas versões da modernidade. De fato, apesar de toda sua história, a Índia dá a impressão de ser uma obra inacabada, apanhada num furacão de ambiguidade em relação à sua identidade. A versão da modernidade que finalmente for escolhida afetará não só o futuro do país, mas também o de países em desenvolvimento em todo o mundo, muitos dos quais se voltam para o exemplo da Índia na busca de um rumo para escapar da pobreza.

Voltemos à pergunta inicial: a Índia é um país moderno? Albert Einstein certa vez escreveu que os americanos eram um povo para o qual a vida estava "sempre se transformando, nunca atingindo uma definição permanente". Hoje, é na furiosa busca da Índia por uma autodefinição onde encontro esta sensação de reinvenção perpétua. Se a modernidade é definida por uma abertura em relação à mudança, uma capacidade de acomodar a novidade e uma disposição de se livrar do passado, acho que a resposta a esta pergunta é: sim, a Índia é um país moderno. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ESCRITOR INDIANO

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