REUTERS/Tingshu Wang
REUTERS/Tingshu Wang

Restrições na China obrigam mulheres a ter notas mais altas

Universidades, academias de polícia e programas de formação técnica impõem cotas Discriminatórias

NYT, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2021 | 05h00

PEQUIM - Na China alguns programas acadêmicos aceitam apenas homens ou limitam o número de candidatas do sexo feminino, que com frequência têm de tirar notas mais altas do que seus colegas. Quando Vincy Li se inscreveu para ingressar em um prestigiado programa de formação de uma academia de polícia, ela sabia que suas chances eram baixas. Afinal, a escola estabelecia cotas, habitualmente limitando o número de estudantes mulheres para não exceder um quarto do corpo estudantil.

Mas as chances dela eram ainda menores. Quando a escola divulgou os resultados dos exames de admissão, este ano, apenas 5 de cada 140 estudantes que realizaram o teste para integrar o programa - menos de 4% - eram do sexo feminino, apesar de mais de mil mulheres terem se candidatado. E a nota de corte para as candidatas do sexo feminino era 40 pontos mais alta do que a dos candidatos, segundo dados da escola.

Para Li, a mensagem foi clara: mulheres não são bem-vindas. “As estudantes ficaram totalmente chocadas”, afirmou Li, que passou mais de um ano se preparando para o exame. “Não entendo porque eles simplesmente não param de nos oferecer essas oportunidades acadêmicas.”

Por toda a China, o nível educacional das mulheres foi às alturas. O número de universitárias ultrapassou o de estudantes do sexo masculino. Mas as mulheres ainda enfrentam barreiras significativas para conseguir ingressar em programas de formação técnica e acadêmica - que possuem cotas que limitam explicitamente seu ingresso em certas áreas - enquanto tentam abrir caminho em profissões tradicionalmente dominadas por homens.

E isso está prejudicando esforços antigos da China de promover o avanço feminino, no país que, segundo a famosa citação de Mao Tsé-tung, as mulheres sustentam “metade do céu”. Programas de formação em aviação civil, com frequência, especificam que buscam apenas candidatos homens, exceto nas formações de comissários de bordo. Academias militares e de polícia impõem cotas com base em gênero que resultam em critérios muito mais rígidos para a admissão de mulheres.

Aquelas que se candidataram a integrar a Universidade de Engenharia da Força de Foguetes do Exército de Libertação Popular, em junho, tiveram de tirar notas 127 pontos maiores do que seus colegas do sexo masculino no gaokao, o vestibular nacional utilizado como o principal critério para admissão nas universidades chinesas, segundo dados de um departamento provincial de educação.

Localizado por telefone, um funcionário do programa de formação da academia policial no qual Li tentou ingressar afirmou que mais candidatas do sexo feminino foram admitidas, por meio de um processo paralelo que tem como base recomendações, em vez de exames.

Mas, mesmo assim, no mês passado apenas 17% dos integrantes do programa de formação da academia de polícia eram mulheres, contra 38% em setembro de 2020. Essa diminuição ocorreu após a universidade anunciar, em setembro de 2020, que restringiria a admissão de mulheres para 15% do total, citando posteriormente os altos riscos e pressões associados ao trabalho policial.

Os padrões divergentes não se limitam a academias de polícia ou militares. Até mesmo algumas faculdades de arte impuseram uma divisão de gênero, meio a meio, para limitar a crescente participação de estudantes do sexo feminino.

Uma pesquisa informal entre as 116 principais universidades da China, publicada por um grupo de ativistas feministas, em fevereiro, constatou que 86 cursos de 18 universidades possuem exigências orientadas por gênero para a admissão de estudantes.

A prática de favorecer candidatos do sexo masculino atrai críticas há muito tempo. Uma década atrás, após a publicação de reportagens a respeito de universidades darem preferência a homens, a indignação pública e muitos protestos levaram o governo a banir processos de admissão orientados por gênero na maioria das áreas.

Universidades privadas nos Estados Unidos também reconheceram que mantinham índices de participação com base em gênero, particularmente após o número de candidatas com maior qualificação crescer.

Mas na China, esse tema tem causado inquietação especialmente nos anos recentes, à medida que um crescente acolhimento ao feminismo tem confrontado a cada vez mais abrangente campanha de controle social do Partido Comunista chinês. Ativistas que criticam preferências com base em gênero têm sido censurados online e as autoridades têm defendido as virtudes dos papéis tradicionais de cada gênero. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.