Jeremy M. Lange/The New York Times
Jeremy M. Lange/The New York Times

Resultado da eleição nos EUA não corrigiu rupturas nas famílias fraturadas pela política

Ao contrário de 2016, quando surgiram conflitos sobre escolhas políticas, desta vez muitas discussões se concentram na própria legitimidade do resultado

Sabrina Tavernise / The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2020 | 07h30

Os pais de Tho Nguyen, que imigraram do Vietnã, sempre foram republicanos. São católicos e contra o aborto. Quatro anos atrás, votaram em Donald Trump. Mas nada preparou Nguyen, de 25 anos, estudante de medicina no Kansas, para o quanto a política dividiria sua família nos quatro anos seguintes, enquanto seus pais ficavam cada vez mais fanáticos pelo presidente.

Nas últimas semanas, à medida que a eleição se aproximava, Nguyen disse que teve brigas aos gritos com seus pais – algo muito incomum na família. A mãe ameaçou parar de cozinhar se ela e suas irmãs votassem em Joe Biden. Ela teve de procurar a tradução da expressão “lavagem cerebral” em vietnamita. Mas, quando ela a empregou para descrever os pais, seu pai disse que, ao contrário, a expressão se aplicava a ela.

Ela disse que seus pais não acreditavam que Biden tivesse vencido e que era difícil convencê-los do contrário, porque não era isto que eles ouviam de fontes vietnamitas no Facebook. “Na cabeça do meu pai, mais da metade dos votos para Biden foram ilegais”, disse Nguyen, que mora com os pais e passou o Dia de Ação de Graças com eles. “É uma coisa simplesmente irracional”.

O choque da eleição de Trump em 2016, pouco antes da temporada de festas, testou muitas famílias americanas que tiveram de enfrentar – ou evitar a todo custo – desentendimentos políticos durante os jantares de Ação de Graças. Muitos democratas diziam estar zangados com os parentes que tinham votado no presidente eleito. Os republicanos rejeitavam a noção de que seus votos provavam que eles não eram boas pessoas.

Mas, quatro anos depois, essas diferenças se transformaram em algo mais profundo em algumas famílias: uma cisão sobre fatos básicos e sobre ideias para o futuro da América. Essa divisão parece ainda mais difícil de consertar após a eleição de 2020, uma vez que Trump alimentou teorias de conspiração que questionam a legitimidade da vitória de Biden.

Em entrevistas durante e após as eleições, os americanos falaram sobre as diferenças que surgiram dentro de suas famílias em relação à política e como elas mudaram nos últimos quatro anos. Alguns aprenderam a conviver com as diferenças e estavam se esforçando para se concentrar nas coisas que tinham em comum com os familiares. Outros romperam relações desde 2016.

Muitos se encontravam numa situação estressante e confusa, tentando lidar com entes queridos que viam o mundo de uma maneira muito diferente da que eles enxergavam. Vários pediram para que seus sobrenomes não fossem publicados porque não queriam perder o resto de relação que ainda tinham. Na maioria dos casos, parentes com quem houve conflito – e que poderiam ter dado outros testemunhos sobre as divergências – não foram contatados.

Ao contrário de 2016, quando surgiram conflitos por escolhas políticas, desta vez as divergências se centraram no próprio resultado. As pesquisas desde a eleição revelaram que a grande maioria dos que votaram em Trump não acredita que a eleição foi justa. Muitos também afirmam que as cédulas enviadas pelo correio foram manipuladas em favor de Biden. Mas a situação é fluida e as entrevistas com eleitores mostraram uma variação substancial entre os republicanos, muitos dos quais têm suas próprias histórias de perda familiar.

“Acredito que foi tudo nos conformes”, disse William Hill, advogado no Meio-Oeste, sobre a eleição. Hill votou em Trump, mas disse acreditar que Biden “não é um cara ruim. Ele não vai fazer nada que vá prejudicar o país. Não vai, não”.

Mas o resultado da eleição não emendou a ruptura em sua família. Ele disse que a irmã, que mora em Seattle, ficou furiosa com ele depois que ele votou em Trump em 2016, e eles não voltaram a se falar desde então. Ele disse que mandou todos os anos para ela e sua mulher um presente de Natal – uma caixa de nozes de uma loja gourmet local – mas nunca teve resposta. A notícia mais recente sobre a irmã, disse ele, foi uma postagem no Facebook após a eleição, concordando com alguém que disse: “Por que nos encontrar com essas pessoas?”.

“Dói muito”, disse Hill, que tem 50 anos. Ele disse que a irmã e sua mulher “são boas pessoas” e que ainda fica perplexo com a possibilidade de que diferenças políticas possam custar um relacionamento. “Minha filha vê as coisas de maneira completamente diferente de mim em termos políticos, mas ela ainda me dá um abraço todas as noites."

As divisões políticas dentro das famílias, embora generalizadas, estão longe de ser universais. Joshua Coleman, psicólogo especializado em desavenças, disse que embora veja casos como este em sua clínica, eles ainda representam uma minoria e, até agora, consistem principalmente de millennials ou outros americanos jovens que estão se afastando ou cortando relações com pais mais conservadores da geração baby boom.

É o caso da família Ackley.

Danielle Ackley, da Carolina do Norte, e sua mãe sempre foram politicamente distantes. Mas concordaram em discordar, mesmo depois da vitória de Trump em 2016, que, segundo Ackley, levou a filha às lágrimas.

Mas, durante uma visita no mês passado, elas tiveram uma discussão terrível sobre política. Ackley, de 37 anos, disse que ficou brava quando ouviu a mãe criticar o caráter de Biden. A situação se agravou. E terminou com ela dizendo para a mãe ir embora.

“Não é nem uma discordância política, é uma discordância de realidade”, disse Ackley, que acrescentou que se sentiu ainda mais distante depois de ver sua mãe fazer um comentário concordando com uma postagem do Facebook que questionava as cédulas enviadas por correio.

Para Debbie Ackley, de 59 anos, a experiência foi dolorosa e chocante. Ela disse que se lembra de ficar olhando para o telefone, tentando não chorar. Ela saiu na manhã seguinte, horas antes do planejado, e estava tão chateada que ficou com medo de bater o carro na estrada.

Ela disse que amava a filha e, embora não entendesse sua raiva, sabia que vinha de um bom lugar. “Danielle tem um coração imenso”, disse ela. “Ela é muito sensível e muito amorosa. Leva as coisas a sério”.

Ela disse que estava aborrecida com o que caracterizou como uma crescente intolerância no país.“É assustador que haja muito pouca tolerância e respeito pelos pontos de vista e opiniões das outras pessoas – é isso que me deixa mais triste”, disse ela.

Para muitos, a chave para evitar as desavenças é, acima de tudo, não falar sobre política. É assim que Michelle, profissional de saúde no Arizona, tentou administrar a situação dentro de sua família. Ela disse que a irmã votou em Trump, mas que há muitos anos elas concordaram em nunca discutir o tema e, assim, são melhores amigas que conversam todos os dias.

“Nós duas pensamos: não, não vamos fazer isso”, disse ela. “Eu a valorizo como minha irmã, somos muito próximas”.

Mas ela chorou ao contar que neste outono teve de bloquear os e-mails de seu pai, gerente aposentado de uma empresa de manufatura, por causa do que ela disse ser um fluxo constante de mensagens carregadas de conspiração que ele não parou de enviar, mesmo depois que ela pediu que parasse. Ela pediu que seu sobrenome não fosse divulgado porque temia mais danos em seu relacionamento com ele.

“Estou muito triste”, disse ela, chorando baixinho. “Porque, você sabe, ele é meu pai, e sempre me ajudou quando precisei. Ele sempre esteve lá por mim." Ainda assim, ela planejava vê-lo ontem, no Dia de Ação de Graças, ao ar livre e de máscara.

Vários eleitores mais velhos disseram que cresceram em torno da família e de amigos que nem sempre concordavam politicamente, mas que, na época, essas distinções importavam menos para a identidade de uma pessoa. Ninguém brigava por causa disso, porque a política não fazia parte de quem você era.

“Eu realmente não vejo como romper com minha família por causa disso”, disse Joe Wallace, de 75 anos, encanador aposentado nas montanhas Pocono da Pensilvânia que votou em Biden. Ele disse que ficou perplexo com o forte apoio de suas irmãs a Trump, mas que nunca falou sobre isso com elas. “Não vale a pena”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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