Sebastian Castaneda/Reuters
Sebastian Castaneda/Reuters

Resultado de eleição peruana depende de votos vindos de São Paulo e revisão de atas 

Diferente de eleições anteriores, nesta, ter 100% das urnas apuradas pode não significar ter o resultado do vencedor

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2021 | 20h00

A contagem dos votos para saber quem venceu o segundo turno presidencial no Peru continua e o resultado depende dos dados que faltam chegar do exterior, poucos de regiões rurais do país e, muito provavelmente da revisão de atas que serão analisadas pela Justiça Eleitoral em razão de erros. 

O último lote de votos do exterior está previsto para chegar nesta quarta-feira, 9, de São Paulo, Brasil. Segundo a ONPE, entidade nacional encarregada de contabilizar os votos nacionais e estrangeiros no Peru, no lote que chega da capital paulista estão concentrados votos de diferentes países. 

Uma determinada quantidade de votos de diferentes países é enviada de forma digital a São Paulo, onde é reunida e enviada, por meio de um funcionário diplomático, a Lima.

Diferentemente de eleições anteriores, nesta, ter 100% das urnas apuradas pode não significar ter o resultado do vencedor. Com 98% das urnas apuradas, o candidato de esquerda Pedro Castillo lidera a corrida com 50,24%. Sua rival Keiko Fujimori, de direita e filha do ex-ditador Alberto Fujimori, tem 49,75%.

Com a decisão sendo disputada voto a voto, deve ser preciso que as atas observadas sejam avaliadas para o novo presidente do Peru ser anunciado. “Quando a diferença entre os candidatos é grande, o que está nas atas observadas não importa. Como agora a diferença é muito pequena, não podemos saber (o vencedor) até que se contabilize esses votos. Amanhã (quarta-feira) teremos 100% dos votos contados, mas a partir daí se começa a contagem das atas observadas”, explica o especialista em direito eleitoral José Manuel Villalobos.

A ata eleitoral é um documento que contém os votos de cada mesa de centros de votação no Peru. Com isso, cada ata tem entre 200 a 250 votos, entre votos válidos e nulos ou brancos. 

As atas observadas pela ONPE são aquelas que possuem algum tipo de erro físico, uma rasura ou um furo, por exemplo, contêm algo ilegível ou estão sem assinatura dos integrantes da mesa. Elas são enviadas ao Jurado Eleitoral Especial, responsável por fiscalizar a eleição, que vai decidir se as atas valem ou não e, então, elas são computadas. Até a noite de terça-feira, 1.396 atas estavam com algum desses erros.

Segundo Villalobos, a verificação das atas observadas pode levar até 10 dias. 

Denúncias de fraude

Na segunda-feira, depois que a apuração dos votos passou a indicar Castillo na liderança, Keiko denunciou "indícios de fraude" e citou ter provas, como vídeos e fotos. Essa possibilidade até o momento foi descartada por observadores eleitorais.

“Aqui estamos acostumados ao fato de que quem perde sempre alega que houve fraude. Não é a primeira vez. Castillo já levantou essa hipótese, no primeiro turno o (Rafael López) Aliaga falou em fraude ao perder, e agora Keiko. De forma geral, é parte de nossa cultura não sermos bons perdedores”, diz Villalobos, acrescentando que a eleição peruana é acompanhada por observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) e União Europeia (UE).

“Irregularidades isoladas podem ter sim ocorrido, mas não afetam todo o processo eleitoral. As atas são digitalizadas, é possível ter acesso. A lei permite que haja representantes de todos os partidos nas mesas”.

As denúncias de fraude embolam ainda mais a eleição presidencial e ampliam o clima de instabilidade política no Peru, país que teve quatro presidentes desde 2018. “ A crise é interminável. Os observadores atestam que a eleição é limpa, mas o que é pior de tudo isso e vai aparecer em outros países é ter o resultado muito apertado, ou seja, uma sociedade muito dividida, que não abre espaço para o diálogo”, afirma Moisés Marques, coordenador de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp).

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