Resultado de pleito no Zimbábue atrasa e deve sair no domingo

Comissão aguarda apuração em áreas rurais; candidato único, Mugabe deve estender seu mandato de 28 anos

Agências internacionais,

28 de junho de 2008 | 20h23

O governo do Zimbábue espera anunciar o presidente Robert Mugabe como vencedor das eleições presidenciais de apenas um candidato no domingo, 29, estendendo seu mandato que já dura 28 anos. Oficiais da Comissão Eleitoral informaram na noite deste sábado que o resultado do pleito amplamente criticado pela comunidade internacional estava atrasado devido à espera dos votos de algumas regiões rurais. "Nesta noite não podemos dar os resultados. Não quero estipular um prazo, mas espero que isso aconteça amanhã", disse Utoile Silaigwana, vice-chefe do escritório da Comissão Eleitoral do Zimbábue à agência Reuters.   Veja também: Baixa participação e denúncias marcam eleições Tsvangirai: de líder sindical a inimigo do regime Mugabe: uma história de 3 décadas no poder   Ainda neste sábado, o governo dos Estados Unidos anunciou que irá impor sanções contra o regime do presidente Mugabe, depois da "farsa" do segundo turno realizado na sexta. Em comunicado, o presidente americano George W. Bush afirmou que o segundo turno das eleições presidenciais no Zimbábue foi uma "farsa que ignorou a vontade do povo do Zimbábue."   A comunidade internacional, lembrou Bush, condenou de modo unânime "a impiedosa campanha do regime de Mugabe de violência e intimidação motivadas politicamente", para deixar claro que as eleições de sexta-feira "de modo algum foram livres ou imparciais."   A oposição se retirou da campanha devido à repressão contra os partidários do Movimento para a Mudança Democrática (MDC). Perante o "flagrante desprezo" de Mugabe à vontade popular, indicou o comunicado, Bush deu instruções à secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e ao secretário do Tesouro do país, Henry Paulson, para que estabeleçam sanções contra o regime "ilegítimo" do Zimbábue e às nações que o apóiam.   O governo dos EUA fará pressões perante as Nações Unidas para a imposição também de sanções internacionais, que incluam um embargo de armamento e a proibição de viajar ao exterior de representantes do regime no Zimbábue, acrescentou Bush.   Tsvangirai venceu o primeiro turno, mas, segundo a Comissão Eleitoral do Zimbábue (ZEC), organismo nomeado pelo governo de Mugabe, não obteve número de votos para uma maioria direta e era necessário a realização de uma segunda rodada.   Pressões externas   Na sexta-feira, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) disse lamentar profundamente a decisão do governo do Zimbábue de seguir em frente com a eleição presidencial.   O embaixador americano na ONU, Zalmay Khalilzad, leu uma declaração do Conselho que dizia que todos os integrantes "concordaram que não existiam condições para eleições livres e justas e que lamentavam que o pleito seguiu em frente nestas circunstâncias."   Por outro lado, o documento, que foi assinado por todos os 15 integrantes do conselho, incluindo África do Sul, China e Rússia, não declarou a votação ilegítima por oposição da África do Sul.   Diálogo   O ministro do Exterior do Quênia, Moses Watangula, disse que possíveis sanções contra o Zimbábue não devem funcionar. Watangula disse que em vez da aplicação de sanções, Mugabe e a oposição deveriam ser incentivados a conversar.   "A história nos mostrou que elas (as sanções) não funcionam porque a liderança só cava e cava e se sente perseguida", afirmou o ministro queniano, cujo próprio país viveu um período de violência política recentemente, antes de um acordo político ter sido firmado.   Arte/Portal "Acho que precisamos incentivar o Zimbábue. O caminho das sanções pode não ser o mais útil. A primeira e mais importante coisa é que o povo do Zimbábue e seus líderes sentem e conversem uns com os outros, em vez de falar uns aos outros."   "Ouvi declarações dos dois lados que eles estão dispostos a conversar. Acho que o importante é em que nível começamos a conversar, com quem e sobre o que", afirmou Watangula.   O ministro queniano fez as declarações durante uma conferência da União Africana no balneário de Sharm el-Sheikh, no Egito. Mugabe deve participar da reunião e, de acordo com o correspondente da BBC em Johannesburgo, o presidente pretende declarar sua vitória antes de deixar o país para o Egito.   O Conselho de Segurança da ONU deve voltar a discutir a situação no Zimbábue nos próximos dias. Porém, diplomatas acreditam que a resistência de África do Sul, China e Rússia torne difícil a adoção de sanções.   Denúncias   Um grupo de monitoramento eleitoral, o Zimbabwe Election Support Network, afirmou que na maioria das áreas rurais, os eleitores foram obrigados a votar na eleição de sexta-feira. Um jornalista do país disse que milícias leais a Mugabe foram de porta em porta em algumas cidades para coagir as pessoas.   Desde o primeiro turno, o MDC disse que 86 de seus partidários foram assassinados e 200 mil foram obrigados a deixar suas casas pelas milícias leais ao partido governista Zanu-PF.   O governo culpa o MDC pela violência, mas Mugabe sugeriu que negociações com a oposição são possíveis - "se formos vitoriosos, o que acho que seremos". Tsvangirai disse que não haveria possibilidade de haver negociações se Mugabe seguisse adiante com o segundo turno.   Deportações   A África do Sul deportou de volta ao Zimbábue cerca de 450 zimbabuanos nesta madrugada, denunciaram grupos de ajuda humanitária neste sábado. A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), informou que alguns grupos de deportados visitaram seus centros médicos na sexta-feira, dizendo que haviam atravessado a fronteira nos últimos dias pela "instabilidade política e violência política."   Laços de Mugabe e Mkebi   Segundo o jornal The New York Times, a complexa relação entre Mugabe e o líder sul-africano, Thabo Mbeki, desenvolvida por quase 30 anos, é um fator crucial para entender porque o presidente da África do Sul, escolhido no ano passado por líderes regionais para mediar oficialmente o conflito no Zimbábue, não critica publicamente Mugabe.   A política de Mbeki, tipicamente chamada de "democracia quieta", está construída na leal convicção de que seus laços especiais com Mugabe podem resolver a crise no Zimbábue através de negociações com paciência, dizem seus colegas e cronistas.   Por anos, a África do Sul tentou bloquear uma ação internacional contra o governo Mugabe e, no dia 19, se recusou a cooperar com um esforço americano na ONU para condenar os ataques políticos no país vizinho.     (Com Efe, Reuters, BBC Brasil, AP e The New York Times)

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