AFP PHOTO / MATTHIEU ALEXANDRE
AFP PHOTO / MATTHIEU ALEXANDRE

Resultado debilita ala radical de Trump

Triunfo de Macron é ‘trégua’ na resposta populista aos desafios da globalização

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2017 | 05h00

A eleição de Emmanuel Macron é uma derrota do movimento antiglobalização, que ganhou impulso no ano passado com a vitória do Brexit na Europa e a eleição de Donald Trump nos EUA. 

A expectativa de um efeito dominó movido pelo populismo nacionalista começou a ser desfeita pela rejeição de candidatos de extrema direita na Áustria e na Holanda nos últimos cinco meses e naufragou com o não dos franceses ao extremismo de Marine Le Pen.

Crítico da União Europeia (UE) e defensor do Brexit, Trump elogiou a candidata da Frente Nacional dias antes da eleição. Segundo ele, Le Pen tinha a posição mais forte em relação a fronteiras e “ao que está acontecendo na França” – uma referência ao terrorismo. Ambos defendem controles mais rígidos sobre a imigração e propõem a reversão do processo de globalização, com abandono ou revisão de tratados comerciais e de integração regional.

“No passado, nós vimos um forte questionamento da globalização, da democracia liberal e da ordem internacional com base em regras estabelecidas, o que poderia levar a uma ruptura. A vitória de Macron é uma das reações a esse movimento”, disse ao Estado o diplomata Sérgio Amaral, embaixador do Brasil nos EUA que ocupou a mesma posição na França entre 2013 e 2015. 

A outra é o processo de “normalização” do governo Trump, com a reafirmação de alianças internacionais e a perda de espaço na administração da ala mais radical representada pelo estrategista chefe da Casa Branca, Steve Bannon, avalia Amaral. O embaixador lembra que Bannon tem ligações com movimentos de extrema direita na Europa e deverá ser enfraquecido em razão da derrota de Le Pen. Candidatos alinhados com o populismo nacionalista já haviam perdido eleições na Áustria, em dezembro, e na Holanda, em março.

O presidente americano conversou por telefone ontem com Macron para cumprimentá-lo pela vitória. Ambos decidiram ter uma reunião bilateral no dia 25 em Bruxelas, no âmbito do encontro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Trump manifestou seu desejo de trabalhar com o francês no enfrentamento de “desafios comuns”.

Com sua defesa de mercados abertos e apoio à UE, Macron é a antítese de Trump. Ainda assim, ambos se beneficiaram de uma das características da onda populista, que é a rejeição de candidatos identificados com o establishment político. “O sistema de partidos políticos tradicionais não se mostrou capaz de antever os problemas criados pela globalização, ou de apresentar respostas a eles”, afirmou Amaral. O embaixador disse ainda que a vitória de Macron é positiva para os parceiros comerciais da França, entre os quais o Brasil. 

O presidente do Council on Foreign Relations, Richard Haass, disse que o “coração” de Trump estava com Le Pen, mas a eleição de Macron é o melhor cenário para os interesses dos EUA. “A vitória de Le Pen seria ruim para a prosperidade e a estabilidade da Europa. Uma Europa estável e próspera é do interesse nacional.” 

Em sua opinião, os grandes derrotados pelo resultado da disputa na França foram o presidente russo, Vladimir Putin, e a primeira-ministra britânica, Theresa May, que agora enfrentará uma UE unificada e fortalecida na negociação dos termos da retirada de seu país do bloco. “O Brexit parece ter sido uma decisão isolada. Nós não vemos outros (países) na Europa seguindo esse caminho”, ressaltou Haass.

Na avaliação dele, a vitória de Macron representa uma “trégua” que deve ser usada para a realização de reformas da UE que reduzam sua ingerência nas economias nacionais e fortaleçam a colaboração entre Forças Armadas, serviços de inteligência e polícias da região.

 

Mais conteúdo sobre:
FrançaEmmanuel Macron

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.