CHARLES SHOLL/FUTURA PRESS
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Resultado do referendo britânico frustra 'torcida discreta' do governo brasileiro

Avaliação no Itamaraty é a de que decisão trará um realinhamento de forças dentro do bloco europeu, que agora ficará concentrado em França e Alemanha; oficialmente, País defende relações estratégicas com Reino Unido e a UE

Lu Aiko Otta - Brasília , O Estado de S. Paulo

24 Junho 2016 | 16h20

A saída do Reino Unido da União Europeia frustrou uma “torcida discreta” que havia no governo brasileiro pela permanência. A avaliação no Itamaraty é a de que essa decisão trará um realinhamento de forças dentro do bloco europeu, que agora ficará concentrado em França e Alemanha. 

O Reino Unido era a terceira maior população, respondia por 15% do Produto Interno Bruto (PIB) e constituía uma espécie de tripé de poder dentro da União Europeia. Há também o risco de um “efeito cascata” na Europa, com as posições nacionalistas e xenófobas ganhando força.

Para o Brasil, há duas consequências negativas do ponto de vista econômico. Primeiro, nas negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia. Os britânicos eram aliados quanto se tratava de discutir a abertura do mercado para produtos agrícolas, tema que conta com forte oposição da França. 

“O Reino Unido é um dos maiores apoiadores de um acordo amplo, e têm atuado firmemente para a inclusão do setor agrícola”, disse um diplomata. “Eles têm sido um pilar importante.”

Assim, a decisão dos britânicos pode ser um complicador para o acordo. Mas não deve ser algo determinante do sucesso ou fracasso. As negociações já são complexas por uma série de outros fatores.

Outro possível prejuízo para o Brasil é que a saída do Reino Unido pode desestabilizar a recuperação econômica daquela região e, com isso, retardar a incipiente retomada de parceiros comerciais importantes do País, como Portugal e Espanha. A consequência, no caso, pode ser uma menor possibilidade de expansão das exportações.

Para o bloco europeu, as consequências são mais extensas. Há o risco de outros países descontentes com o bloco também saírem. Na visão dos diplomatas brasileiros, a crise dos refugiados pode ter um papel importante nesse processo, pois há um acirramento de posições por parte dos grupos nacionalistas e xenófobos.

As políticas públicas também podem sofrer consequências, porque o Reino Unido tinha um peso importante na defesa de posições mais favoráveis ao aumento da produtividade das empresas. Ele ajudava a refrear “ímpetos estatizantes” defendidos principalmente pela França. 

Nota. Oficialmente, o Brasil manifestou que manterá suas relações estratégicas tanto com o Reino Unido quanto com a União Europeia, segundo nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores.

 

Essa decisão não alterará a prioridade conferida pelo País ao acordo entre o Mercosul e a União Europeia, diz o texto. “Continuaremos engajados, com prioridade inalterada, na negociação de um Acordo de Associação entre o Mercosul e a União Europeia, que trará importantes benefícios para os dois lados.”

A nota ressalta que a parceria do País com a União Europeia completa 10 anos em 2017. Ela abrange 32 diálogos setoriais. A próxima reunião de cúpula ocorrerá no Brasil. Há também um Diálogo Estratégico do Brasil com o Reino Unido, e sua próxima edição será sediada também no Brasil. 

A intenção do País é “cooperar no amplo espectro de interesses comuns e a reforçar, em novos moldes, a relação comercial bilateral e a promoção de investimentos recíprocos".

“O Governo brasileiro recebe com respeito o resultado do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia.”, diz a nota. “O Brasil confia que essa decisão não irá deter o processo de integração europeia, nem o espírito de abertura ao mundo que caracterizam, e devem continuar a caracterizar, tanto o Reino Unido como a UE. Confia, igualmente, que todos os esforços serão feitos para assegurar uma transição suave e estável.” 

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