''Resultado é punição ao Partido Socialista''

Para especialista, grande abstenção indica um aumento da alienação da sociedade em relação aos partidos

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2011 | 00h00

LISBOA

ENTREVISTA

António Costa Pinto, cientista político do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

O resultado da eleição em Portugal é, sobretudo, uma punição ao partido que está no poder em tempos de crise. Essa é a interpretação do cientista político António Costa Pinto, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Para ele, o futuro primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, do PSD, cumprirá as políticas de austeridade, um compromisso assumido com a União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Costa Pinto acredita ainda que a abstenção foi a "vencedora" da eleição portuguesa, como uma "progressiva alienação da sociedade em relação aos partidos". A seguir, a entrevista concedida ao Estado.

Pedro Passos Coelho será o premiê de Portugal. Como o senhor interpreta esse resultado?

Digamos que a única diferença é que a vitória da direita é maior do que as pesquisas apontavam. Confirma-se, nas urnas, a expectativa que se tinha de que o governo seria majoritariamente de centro-direita. Confirma a vitória do PSD sem maioria absoluta e a necessidade de coligações.

Coligações, em geral, significam concessões. O senhor acha que haverá grandes concessões da parte do PSD?

O resultado implica em poucas concessões. Esses dois partidos estão habituados a governar. Já estiveram no governo de José Manuel Durão Barroso, em 2002, e em outras fases de nossa democracia. Será um governo estável.

O senhor acredita na participação do Partido Socialista (PS) em uma coalizão de governo, como julgam possível alguns membros do PSD?

Parece-me duvidoso no curto prazo. Até por uma questão de solvabilidade, a não ser que a conjuntura se agrave no futuro. A participação do PS não acontecerá neste primeiro momento.

O PS enfrentou uma derrota maior do que a esperada. É uma punição?

O primeiro-ministro José Sócrates acaba de se demitir da liderança do PS, o que era natural. O PS passará por um novo processo de eleição interna para a escolha do líder do partido. O importante é que o pacto com a União Europeia (UE), Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional (FMI) será cumprido pelos partidos que vão governar, o PSD e o CDS-PP, e também pelo maior partido da oposição, o PS, que assinou o acordo originalmente. A comunidade internacional pode contar que esse acordo de austeridade será cumprido.

A abstenção parece ter sido a grande vencedora das eleições, a julgar pelo índice de 41,2%, superior aos 38,8% obtidos por Passos Coelho.

Essa é a tendência da democracia portuguesa nos últimos 20 anos: uma subida mais ou menos lenta, mas consolidada da abstenção. Se as tendências se confirmarem, teremos uma abstenção por volta de 40%. Em Portugal, o voto não é obrigatório. Esse resultado indica uma progressiva alienação da sociedade portuguesa em relação aos partidos e em relação àqueles que têm governado Portugal, ora oriundos do PS, ora do PSD.

É esse o ônus de governos que se alternam, sem que haja mudanças significativas no exercício do poder, como em Portugal?

Sem dúvida. Mas, apesar de tudo, convém não subestimar o resultado da eleição. Quer à direita, com o resultado obtido pelo CDS-PP, quer à esquerda, com o PC e o bloco de esquerda, que crescerá significativamente. Fica claro que ainda há algum protesto canalizado pelo voto em Portugal. Esse é um movimento significativo.

Com Pedro Passos Coelho e a coligação PSD-CDS-PP, podemos considerar que Portugal se alinha a grande parte da Europa Ocidental, que vira à direita?

Sem dúvida, mas no sul da Europa há uma diferença: a rotação no poder é uma resposta à crise. Se na Grécia a Nova Democracia, de direita, foi substituída pelo Partido Socialista, em Portugal foi o inverso. José Sócrates realizou o governo mais centrista da história do PS. Ele foi inspirado pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, trabalhista, com políticas sociais de centro, mas de valores à esquerda, como o abordo e o casamento homossexual. O resultado da eleição é, sobretudo, uma punição ao partido que está no poder. Não houve uma revolução. Portugal já passou pela mesma alternância em outros momentos de sua história.

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