Ayrton Vignola/AE
Ayrton Vignola/AE

Resultado eleitoral aumenta divisão da sociedade

Enquanto chavistas elogiam presidente, restante da população cobra de Chávez soluções concretas para os problemas do país

Roberto Lameirinhas ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2010 | 00h00

As opiniões pelas ruas de Caracas refletem a fratura social do país e são dividas entre os seguidores da "revolução bolivariana" de Hugo Chávez e os decepcionados com a gestão deficiente do governo em temas sensíveis para os venezuelanos, como a administração da receita do petróleo, a limitação das liberdades democráticas e a segurança pública.

Integrantes de uma sociedade polarizada, partidários do governo e da oposição repetem o discurso dos líderes de seus respectivos movimentos. "Os venezuelanos disseram como querem que o país seja governado", diz Marta Vargas, de 24 anos, estudante de direito da Universidade Andrés Bello. "Há uma nova realidade na Venezuela e o governo não pode continuar deixando de levar isso em conta.

A democracia deve ser algo que traga bem-estar para todo o povo, não só para um grupo que se instalou no poder e enriquece à custa da exploração de nosso petróleo e financia seus projetos ideológicos em outros países", acrescenta, enquanto conversa com amigas na entrada da estação do metrô da Praça Altamira, um reduto da oposição.

"As milícias de motorizados (motociclistas) chavistas tentaram intimidar eleitores no domingo em Los Palos Grandes (outro reduto opositor de Caracas)", interrompe Rosa María, uma das amigas de Marta. "Essa divisão está nos conduzindo rumo à violência, a uma guerra civil. Mas, se não houver fraude, isso acabará em 2012 (nas eleições presidenciais)."

Em Sabana Grande, distrito de comércio popular da capital, o discurso chavista predomina. Assim como os opositores de Altamira, os partidários do governo consideram-se os vencedores da eleição de domingo. "O que os políticos da Quarta República (período anterior à chegada de Chávez ao poder) fizeram pelos pobres? Nada. Só os ricos podiam ir ao médico, frequentar boas escolas e ter acesso a moradia digna", discursa Marcel Rondón, técnico em eletrônica, de 23 anos, usando um gorro do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

"Saímos da eleição de domingo com a maior bancada da Assembleia Nacional, com 98 dos 165 deputados. Os esquálidos (como os chavistas costumam referir-se à oposição) sabem que numa eleição proporcional não há relação direta entre o número absoluto de votos e as cadeiras conquistadas.

Como sempre, mentem." Mais experiente, o comerciante de ferragens Martín Cepeda, de 52 anos, entusiasma-se menos com os argumentos chavistas. "Tive um sobrinho de 30 anos, com mulher e dois filhos, morto num assalto em Caracas no ano passado. Não temos nenhuma segurança para sair às ruas. Minha mulher teve um problema ginecológico e foi encaminhada a uma das clínicas dos médicos cubanos. Era um caso de cirurgia, mas os cubanos não fazem mais do que receitar comprimidos. Tivemos de nos cotizar para que ela se tratasse numa clínica particular. Não me importa a política, se o presidente é comunista ou nazista, quero apenas que o Estado preste os serviços que são pagos pelo imposto que recolhemos."

Cepeda diz ter votado em candidatos da MUD no domingo, mas é cético também em relação às promessas da oposição. "Políticos estão preocupados apenas com os próprios bolsos."

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