REUTERS/Andres Stapff
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'Resultados indicam que oposição tem mais chance de vencer segundo turno no Uruguai', diz sociólogo

Frente Ampla, de esquerda, vai enfrentar segundo turno contra Partido Nacional, que deve montar aliança com outros partidos de direita

Entrevista com

Sebastián Aguiar, sociólogo da Faculdade de Ciências Sociais de Montevidéu

André Marinho, especial para O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2019 | 09h00

O candidato da Frente Ampla, Daniel Martínez, vai disputar o segundo turno das eleições presidenciais do Uruguai com Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, segundo projeções de pesquisas de boca de urna divulgadas neste domingo, 27. Como já indicado durante a campanha, Lacalle Pou deve se unir ao Partido Colorado, de Ernesto Talvi, para impedir um quarto mandato consecutivo da esquerda no país. 

Em entrevista ao Estado, o sociólogo uruguaio Sebastián Aguiar, da Faculdade de Ciências Sociais de Montevidéu, afirma que a aliança coloca a direita como favorita no pleito de 27 de novembro, mas pondera que é difícil fazer qualquer prognóstico definitivo. Ele explica que a Frente Ampla obteve resultado decepcionante porque perdeu votos no interior e das classes mais pobres.  

Quais temas dominaram a campanha?

Enfrentaram-se dois modelos econômicos muito claros: um do governo e outro da oposição. Em grande medida, o debate na campanha foi sobre o déficit fiscal, austeridade e ajuste, no lado da oposição, e no lado do governo, mudanças mais graduais, aproveitando os avanços econômicos dos últimos anos. Mas também houve vários temas culturais.

Se no caso do debate econômico se formaram dois grandes blocos, no caso do cultural, a discussão foi mais uniformizada. Isso porque, no início, os principais candidatos apostaram na continuidade das políticas sociais e na agenda de direitos. Então, no início da campanha, todos os candidatos convergiram ao centro.

No entanto, a partir da metade da campanha, a ascensão do candidato Manini Rios, que tinha um discurso mais conservador, começou a tirar votos da direita - dos partidos Nacional e Colorado. Ele tinha um discurso de defesa dos valores da família e contra a ideologia de gênero, um pouco parecido com o de Jair Bolsonaro. Isso obrigou os candidatos da oposição a diversificarem mais  os temas. As duas principais legendas da oposição são partidos grandes, com diferentes setores, alguns mais ao centro e outros mais à direita.

A discussão grande, no fim, foi entre continuidade e mudança. Houve uma polarização no econômico e, no cultural, um discurso mais ao centro, no início, e mais diversificado, no final, com temas mais à direita. Os principais candidatos de oposição disseram que fariam uma coalizão com os demais partidos e isso fez com que Nacional e Colorado não fossem muito críticos às demais legendas. Os primeiros resultados mostram que se deram mais ou menos bem. Nas últimas semanas, havia uma tendência de ascensão para a Frente Ampla nas pesquisas, mas os resultados foram piores do que esperavam.  

Por quê?

Creio que o que aconteceu é que a Frente Ampla, nas últimas eleições, havia conseguido votos em lugares não tradicionais. Nas eleições de 2005, depois da crise, havia um forte desejo por mudança. Nas de 2009, o carisma de Pepe Mujica fez com que os mais pobres, que não costumavam votar na Frente Ampla, começassem a votar. Nas eleições seguintes, de 2014, as cidades pequenas do país, que também não votavam na FA, elegeram Tavares Vazquez. Desta vez, tanto as classes mais pobres quanto as cidades do interior parecem não ter acompanhado o partido. A votação da FA em Montevidéu foi forte, mas, nesses dois campos onde tinham conquistado novos votos, não. 

A coalizão de direita tem chances de vencer o segundo turno ou a Frente Ampla vai prevalecer?

É muito difícil emitir uma opinião. Aqui, a maioria dos analistas concordam que a oposição tem mais chance, com esses números. Mas será muito apertado e é difícil fazer um prognóstico. Mas esses resultados indicam que a oposição têm mais chance de vencer. 

Qual é sua avaliação do resultado do referendo sobre a militarização da Guarda Municipal? 

Era prevível que não fosse aprovado, porque, teoricamente, chegar a 50% é muito difícil em plesbicito. No final, é sempre esperado que a votação nas urnas seja menor do que é esperado.

 

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