WAKIL KOHSAR / AFP
WAKIL KOHSAR / AFP

Retirada americana abalou fé europeia nas decisões de Biden; leia a análise

Sombreando todas as deliberações está a repentina tomada de controle do Taleban no Afeganistão e o gerenciamento aparentemente caótico da retirada americana

Ishaan Tharoor/ THE WASHINGTON POST*, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2021 | 05h00

Apenas alguns meses atrás, a lua de mel parecia estar a pleno vapor. O presidente Joe Biden chegou a Bruxelas, em junho, e foi tratado como um amigo que há muito tempo não se via. Mas, com o passar dos meses, as fontes de atrito permaneceram. Sombreando todas as deliberações está a repentina tomada de controle do Taleban no Afeganistão e o gerenciamento aparentemente caótico da retirada americana, que abalou a fé europeia nas decisões e prioridades de Biden. 

Na semana passada, os líderes europeus e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pressionaram Biden para adiar o prazo da retirada, planejado para o dia 31. Mas ele não se mexeu. Para uma miríade de políticos e diplomatas europeus, particularmente em países que investiram muito no apoio às duas décadas da missão da Otan no Afeganistão, os últimos eventos serviram como uma reavaliação. 

Agindo segundo o acordo de Donald Trump com o Taleban, Biden anunciou uma retirada total – diante da qual seus aliados da Otan não tiveram escolha a não ser seguir. Enquanto expressam preocupações sobre a situação humanitária e também com a perspectiva de gigantescos fluxos de refugiados afegãos, as autoridades europeias reclamam, em particular, da falta de consulta do governo Biden. “Não somos ilhas. As decisões de nossos aliados têm consequências para seus aliados”, disse Constanze Stelzenmüller, especialista em assuntos alemães e membro do Brookings Institution, ao Today’s World View.

A sensação de catástrofe que paira sobre o Afeganistão apenas contribuiu para a longa discussão sobre a necessidade de maior autonomia estratégica da Europa. “Devemos fortalecer a Europa para que nunca tenhamos de deixar tudo para os americanos”, disse Armin Laschet, que concorre ao cargo de sucessora de Angela Merkel, durante um debate no domingo. 

“Para Alemanha e Reino Unido, que investiram pesado no Afeganistão – capital político, tropas, dinheiro – a operação afegã era uma questão de compromisso com a Otan”, disse Benjamin Haddad, diretor do Centro Europeu do Conselho Atlântico, ao Today's World View. “É um verdadeiro trauma para Berlim e Londres. Sinaliza uma mudança nas prioridades americanas que vai além da retórica e das personalidades presidenciais./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

*É JORNALISTA

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