Retirada da estátua de Franco reacende debate na Espanha

A retirada de uma estátua do general Francisco Franco nesta quinta-feira da Academia General Militar de Zaragoza, onde são formados os oficiais das Forças Armadas, reacendeu o debate sobre a continuidade dos símbolos da ditadura na Espanha.O ministério da Defesa informou que está trabalhando para retirar o monumento eqüestre, que desde 1948 estava na entrada da Academia, e que será levado para o museu provincial da cidade de Zaragoza, cuja prefeitura doou a estátua para o Exército. No seu lugar, será colocada a bandeira nacional, segundo um comunicado do ministério, que anunciou também a realização de um concurso de idéias para instalar um novo monumento onde até hoje estava a estátua do ditador que governou a Espanha entre 1939 e 1975.Desde a sua chegada no ministério, em abril passado, José Antonio Alonso defendeu a retirada da estátua de Franco da Academia de Zaragoza e de todas as instalações do Estado, porque "é preciso trabalhar para todos os espanhóis".Guerra civilPara Alonso, Franco e os episódios históricos que se relacionam com a sua figura, como o golpe militar de 1936 que acabou com o governo democrático da Segunda República e provocou a Guerra Civil (1936-1939), causam "divisão e confronto".Este foi um argumento empregado pelo socialista José Luis Rodríguez Zapatero desde a sua chegada à presidência do governo, em abril de 2004, quando se comprometeu a aprovar uma lei, agora em trâmite parlamentar, que busca garantir a reparação moral das vítimas da guerra e da posterior repressão franquista.Mas tanto este projeto de lei como a decisão de retirar os símbolos franquistas, em forma de estátuas ou nomes de ruas, dividem a sociedade, os políticos e os historiadores.Pesquisa públicaSegundo uma pesquisa publicada em julho pelo jornal El País, 43,1% dos espanhóis acreditam que é preciso "preservar monumentos, estátuas ou ruas dedicadas à recordação do golpe militar e os seus protagonistas", frente a 40,9% que pensa o contrário.Para a esquerda, a permanência desses símbolos é uma anomalia da democracia, depois de mais de 30 anos desde a morte de Franco, enquanto que para a direita eles fazem parte da História e a sua retirada agora só serve para abrir discussões já superadas.TransiçãoNos primeiros anos da transição, e sobretudo depois da vitória das forças de esquerda em muitas localidades nas primeiras eleições municipais livres em 1979, foram numerosos os emblemas e nomes de ruas que acabaram mudando.Mas esse primeiro impulso renovador passou e hoje existem inúmeras referências ao regime franquista nas cidades espanholas, principalmente na forma de nomes de rua dedicadas aos militares que lutaram na guerra ao lado de Franco.Em três capitais de províncias, Santander, Valência e Toledo, existem estátuas eqüestres do general e uma quarta na cidade de El Ferrol, cidade natal do ex-ditador.Direita X EsquerdaO conservador Partido Popular (PP) criticou a proposta e disse que o debate político está sendo deixado "no passado" e está fazendo "leituras parciais da História".A coalizão de maioria comunista Esquerda Unida manifestou seu apoio à medida e lembrou que Franco "deu um golpe de Estado num governo legitimamente constituído, provocou uma guerra civil e estabeleceu a ditadura militar por 40 anos".O presidente da Associação pela Recuperação da Memória Histórica, Emílio Silva, também expressou sua satisfação pela retirada do monumento e disse que a remoção deve ser feita "durante o dia, e não à noite", como foi construída a estátua de Madri.

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