SANA/AP
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Impasse entre rebeldes sírios e forças pró-governo suspende retirada de civis de Alepo

Ataque a cerca de 20 ônibus enviados para localidades xiitas na província de Idlib teriam motivado a suspensão das operações, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos

O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2016 | 16h16

DAMASCO - A retirada de civis e insurgentes na cidade síria de Alepo e nas localidades de Fua e Kefraya, ambos redutos xiitas controlados pelo governo e cercados pelos rebeldes na província vizinha de Idlib, foi adiada na noite de ontem até nova ordem, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), ONG que monitora o conflito a partir de Londres.

O diretor da OSDH, Rami Abdel Rahman, afirmou que a suspensão foi determinada em razão do ataque a cerca de 20 ônibus enviados para os localidades xiitas em Idlib - o motorista de um dos veículo teria morrido no ataque, segundo o observatório. Um responsável do grupo rebelde Nuredin al-Zinki, Yasser Youssef, também confirmou o adiamento "momentâneo" da operação, mas afirmou que o incidente não deve ter impacto na retomada das operações.

Com a falta de acordo para as operações, que deveriam acontecer de forma sincronizada, tanto em Alepo quanto nos redutos xiitas em Idlib, um comboio de ônibus continuava aguardando até a noite de ontem a autorização para retomar a retirada dos insurgentes e civis, que aguardavam famintos e com frio no último reduto rebelde de Alepo. 

Durante todo o dia de ontem, milhares de pessoas aguardaram concentradas no bairro de Al-Amiriyah, ponto de partida dos primeiros comboios que, na quinta-feira, saíram da cidade antes que a retirada fosse suspensa, no dia seguinte. Elas passaram a noite entre os destroços dos edifícios, à espera do transporte. Sem água ou comida, esgotados, sobrevivem comendo tâmaras.

No último hospital do setor rebelde as condições são péssimas. Doentes e feridos estavam no chão, não havia água ou comida e o edifício contava com um aquecimento mínimo, apesar da temperatura de seis graus abaixo de zero durante a noite. O fisioterapeuta Mahmud Zaazaa disse que restavam apenas "três médicos, um farmacêutico e três enfermeiros" na região.

Negociações. Uma fonte militar confirmou ontem à agência AFP a entrada em vigor de um novo acordo entre os beligerantes, que conta com a aprovação da Turquia, que apoia os rebeldes, e da Rússia e Irã, aliados do governo. Segundo a emissora estatal, cem ônibus realizarão a retirada de pessoas em Alepo.

Já uma fonte rebelde afirmou que o acordo prevê que a retirada seja ralizada em duas etapas. "Em uma primeira etapa, metade das pessoas cercadas em Alepo devem sair, paralelamente à retirada de 1.250 pessoas de Fua", explicou. "Em seguida, outras 1.250 pessoas de Kefraya sairão ao mesmo tempo que os demais habitantes de Alepp", disse.

Por último, outros 1,5 mil indivíduos poderão deixar Fua e Kefraya, enquanto o mesmo número de pessoas deve sair de Zabadani e Madaya, duas cidades rebeldes cercadas pelo regime na Província de Damasco.

Diplomacia. Os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU se reuniram em Nova York para votar um texto apresentado pela França, que prevê o envio de observadores a Alepo. A resolução solicita ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que envie rapidamente para a cidade a equipe humanitária das Nações Unidos presente na Síria, "para uma vigilância apropriada e uma observação direta" da "retirada das partes cercadas" da cidade.

Mas a Rússia, aliada do governo sírio, anunciou que vetará a resolução. “Não podemos permitir que seja aprovado porque é um desastre”, declarou o embaixador russo na ONU, Vitali Churkin, a jornalistas. O diplomata russo disse que seu aliado sírio apresentará suas próprias propostas para realizar o monitoramento, mas recusou dar detalhes.

Quase 8,5 mil pessoas foram retiradas da cidade antes da suspensão, na sexta-feira, segundo o OSDH. A ONU calcula que restam 40 mil civis e entre 1,5 mil e 5 mil combatentes insurgentes com suas famílias no reduto rebelde, segundo o enviado para a Síria, Staffan de Mistura.

Após anos de bombardeios e um cerco de mais de quatro meses, as forças governamentais lançaram uma ofensiva em 15 de novembro que lhes permitiu reconquistar mais de 90% dos bairros controlados pelos rebeldes no leste da cidade desde 2012. Desde de 2011, a guerra na Síria deixou mais de 310 mil mortos e provocou o deslocamento de metade da população do país. / AFP

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