Miguel Gutiérrez/EFE
Miguel Gutiérrez/EFE

Retórica de golpe indica duro diálogo em Caracas

Ante mediação da Unasul, Maduro insiste na tese de conspiração contra seu governo

Denise Chrispim Marin, Enviada Especial / Caracas, O Estado de S. Paulo

25 de março de 2014 | 23h06

CARACAS - O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, aproveitou nesta segunda-feira, 25, a presença dos chanceleres da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) em Caracas para reforçar o discurso segundo o qual seu governo enfrenta uma ofensiva golpista da oposição. No primeiro dia da missão da Unasul que tem como objetivo mediar a crise entre governo e oposição, Maduro anunciou a prisão dos três brigadeiros por conspirar contra ele.

O presidente, porém, não divulgou o nome dos supostos conspiradores, que teriam aderido à oposição.

Maduro participou da abertura da reunião de chanceleres da Unasul, como meio de orientar a agenda de conversas. "Tenho de surpreendê-los e dizer que, na noite passada, capturamos três brigadeiros que vínhamos investigando graças ao poderoso moral de nossa Forca Armada Nacional Bolivariana. Três comandantes da Forca Aérea que pretendiam se lançar contra o governo legitimamente constituído", afirmou. "Todos estão à disposição dos tribunais militares", completou Maduro.

Conforme explicou aos chanceleres, oficiais mais jovens denunciaram, "alarmados", a "tentativa de golpe de Estado". Maduro enfatizou uma suposta declaração da oposição venezuelana de que esta seria uma semana decisiva e responsabilizou seus adversários pelo caos nos serviços públicos.

"(O episódio) é lamentável para a carreiras desses oficiais, que a perderam por ouvir conselhos daqueles que querem destruir a democracia", insistiu, com o cuidado de não revelar a identidade dos militares presos.

Maduro tentou convencer os chanceleres de que a Venezuela não está vivendo uma situação permanente de protestos. Desde o início de fevereiro, manifestações têm ocorrido todos os dias em múltiplas cidades do país, especialmente em Caracas. Conforme insistiu, protestos são "normais" em qualquer lugar do mundo.

Até esta segunda, 35 pessoas tinham sido mortas desde 12 de fevereiro. Em sua maioria, oposicionistas. Cerca de 30 estudantes estão presos, assim como o líder do partido Vontade Popular (VP), Leopoldo López, e dois prefeitos da mesma legenda - Daniel Ceballos, de San Cristóbal, e Enzo Scarano, de San Diego.

Em um balanço das atividades de segurança durante as manifestações da oposição, o chefe do Comando Estratégico Operacional, general Vladimir Patrino, afirmou que 24 das 35 mortes foram causadas por disparos de armas de fogo. Patrino atribuiu as mortes a uma "insurreição armada da oposição", o que exigira do governo uma mudança de tática para o seu combate.

O general não mencionou denúncias da oposição de que ataques teriam partido de membros da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), da Polícia Nacional e de grupos civis armados vinculados ao governo que circulam armados em motocicletas, os chamados coletivos. Patrino discursou em Puerto Ordáz ao anunciar as ações para "pôr ordem" em todo o Estado de Bolívar.

A retórica de confronto do governo aparentemente torna mais complicada a missão da Unasul de conseguir uma saída negociada para a crise venezuelana. Os chanceleres se reuniriam nesta noite com dirigentes da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), que congrega os partidos de oposição ao chavismo. A MUD queixa-se do autoritarismo e da falta de capacidade do regime de Maduro de fazer frente aos principais problemas econômicos do país - onde a inflação anualizada supera os 54%, o câmbio dá sinais de descontrole e a escassez de bens de consumo e alimentos é cada vez maior.

Na véspera, o presidente da Assembleia Nacional e um dos principais líderes do chavismo, Diosdado Cabello, anunciou a cassação do mandato da deputada oposicionista María Corina Machado, que teria ocupado um posto na missão do Panamá na OEA na semana passada - o que violaria a Constituição venezuelana.

Em Lima, onde participava de um evento em defesa da livre expressão, María Corina recusou-se a aceitar a destituição e prometeu retornar a Caracas na quarta-feira, 26, para reassumir sua cadeira na Assembleia. Um grupo de deputados ligados à MUD dirigiu-se ao Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) para contestar a decisão de Diosdado. Por seu lado, deputados do governo também foram ao TSJ para referendar a cassação da opositora.

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