REUTERS/Toby Melville
REUTERS/Toby Melville

Retórica dura da UE sobre Brexit ameaça futuro político de May

Irritados com concessões na negociação do Brexit, grupo de 60 deputados conservadores pode provocar queda do governo britânico

Andrei Netto, Correspondente/Paris, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2018 | 20h46

LONDRES - A busca por uma saída suave da União Europeia ameaça derrubar a qualquer momento a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, que está sob pressão das alas mais radicais do Partido Conservador. Irritados com as concessões da premiê a Bruxelas, um grupo de 60 deputados governistas ameaça apresentar ao Parlamento uma moção de desconfiança, o que pode derrubar May e seu gabinete. 

+ União Europeia deixa porta aberta para Reino Unido recuar do Brexit

A rebelião no Partido Conservador aumentou no fim de semana, quando o ministro das Finanças, Philipe Hammond , afirmou em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, que o divórcio resultará em mudanças “modestas”, que o Reino Unido busca “a relação mais próxima possível” com a União Europeia. 

As declarações do ministro, considerado por muitos como um potencial candidato ao cargo de premiê, foram interpretadas como uma sina de que o governo de May estaria disposto a ceder às exigências de Bruxelas na segunda etapa das negociações, iniciada nesta segunda-feira, dia 29. Nesta fase, britânicos e europeus discutem a relação após a separação, a partir de março de 2019, prazo final para a conclusão do Brexit

+ Câmara dos Comuns britânica aprova lei de saída da União Europeia

Londres desejava um período de transição de “no mínimo dois anos”, intervalo no qual o país seguiria no mercado comum, no espaço de livre circulação de pessoas e obediente ao Tribunal Europeu de Justiça. Nesta segunda-feira, dia 29, os ministros da UE aprovaram a proposta de transição de apenas 21 meses – o período iria de 31 de março de 2019 a 31 de dezembro de 2020.

Desconfiança. A notícia irritou a ala mais antieuropeia do partido, que deseja o Brexit mais duro possível. “Se for isso, não precisa nem negociar o Brexit”, protestou o deputado Jacob Rees-Mogg, líder do grupo de 60 parlamentares conservadores anti-UE. 

De acordo com ele, o governo “se deixa intimidar” por Bruxelas, transformando o Reino Unido em um “Estado vassalo” da UE.

“Nossos negociadores nos dizem que deveríamos aceitar o que a UE nos dá. Este país não pode se comportar assim.”

Dos 60 deputados do grupo, 48 estão prontos para propor o voto de desconfiança, que teria de ser votado em 48 horas. A situação expôs a divisão no Partido Conservador e a perda de controle de May.

À medida que o Brexit se aproxima, cresce o apoio a um novo referendo sobre o tema. Pesquisa recente indica que o país continua dividido – metade a favor e metade contra. Os jovens, entre 18 e 24 anos, são os mais europeístas: 73% querem ficar na UE. Dos idosos com mais de 60 anos, 60% votaria pelo rompimento. Enquanto ingleses e galeses são a favor do divórcio, escoceses e norte-irlandeses são contra. 

O cientista político e professor do King’s College, de Londres, Anand Menon, diretor da UK in a Changing Europe, ONG que encomendou a pesquisa, diz que o Brexit, além de dividir os britânicos, está envenenando as relações internas dos principais partidos do Reino Unido. 

“O Brexit representa um enorme desafio para os líderes dos principais partidos políticos. Seus pontos de vista estão em desacordo com os de suas bancadas”, explica. “Isso promete causar problemas para May e para (o trabalhista) Jeremy Corbyn. A primeira-ministra, em particular, pode enfrentar uma oposição de seus próprios deputados para garantir o acordo de transição que ela quer.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.