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Reprodução/ Royal Navy UK
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Retórica russa sobre incidente com navio de guerra britânico mira o público interno, diz analista

Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM SP, afirma que mais do que uma demonstração de força ao Ocidente, relato sobre suposta ação militar visa atender a interesses do governo russo no cenário nacional

Entrevista com

Entrevista com Gunther Rudzit, professor do curso de Relações Internacionais da ESPM SP

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 13h09

O enredo é digno de um filme de ação ambientado na Guerra Fria: um destroier britânico entra em águas territoriais russas no Mar Negro contrariando todos os alertas, e é repelido após um caça disparar bombas em advertência. Segundo o relato do Ministério da Defesa da Rússia, foi exatamente isso que aconteceu na manhã de quarta-feira, 23, em uma localização próxima à fronteira sul da península da Crimeia.

A versão foi imediatamente negada pelo Ministério da Defesa do Reino Unido, que afirmou que o HMS Defender - o navio de guerra supostamente envolvido no episódio - trafegou apenas por águas territoriais ucranianas, tendo sido alertado apenas sobre a realização de um exercício militar russo, não tendo recebido nenhum tipo de advertência - muito menos bombas lançadas de um SU-24M. Vídeos com depoimentos de membros da tripulação chegaram a ser divulgados, negando o relato russo.

Nesta quinta-feira, 24, o governo russo retomou o debate, afirmando estar preparado para destruir qualquer navio de guerra invasor que não siga suas advertências.

Independentemente da veracidade dos fatos descritos, o conflito de versões faz parte do dia a dia da região desde a anexação da Crimeia em 2014, de acordo com Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM SP. “O que é estranho é os russos afirmarem ter enviado um avião caça para lançar bombas perto do navio britânico. Isso seria uma escalada bastante grande, e é estranho não ter nada que comprove esse momento, como um vídeo, ainda mais se o objetivo era mostrar força perante o Ocidente”, disse.

Segundo o professor, o anúncio dos russos aparenta ter como alvo o público interno, considerando a proximidade das eleições legislativas, marcadas para setembro. "A popularidade de Putin não está lá essas coisas, principalmente depois do tom elogioso em que ocorreu a cúpula com Joe Biden, mesmo após ele chamá-lo de assassino. Esse tipo de ação militar sempre ajuda a tentar melhorar o apoio diante do povo russo, que espera por um líder forte. Não é de se estranhar que, caso não tenha ocorrido, ele tenha anunciado para agradar o público interno."

Leia a entrevista completa:

Com o conflito de versões, ainda não está claro o que realmente ocorreu na região, mas qual o interesse do governo russo em divulgar sua versão tão rapidamente? É uma demonstração de territorialismo sobre a Crimeia apenas ou pode se fazer outra leitura?

Parece ser algo voltado para o público interno. A popularidade de Putin não está lá essas coisas, principalmente depois do tom elogioso em que ocorreu a cúpula com Joe Biden, mesmo após ele chamá-lo de assassino. Esse tipo de ação militar sempre ajuda a tentar melhorar o apoio diante do povo russo, que espera por um líder forte. Não é de se estranhar que, caso não tenha ocorrido, ele tenha anunciado para agradar o público interno.

O senhor fala em determinantes internas, mas essa situação acontece às vésperas de um exercício militar envolvendo EUA, Ucrânia e aliados da Otan no Mar Negro. Não é possível entender a movimentação como uma espécie de resposta à Otan?

A navegação de navios americanos no Mar Negro tem gerado esse tipo de atrito há anos, principalmente depois da anexação da Crimeia. Isso (advertências) já ocorreu algumas vezes, inclusive com voo de aviões russos bastante próximos a navios americanos, então pode se dizer que é um comportamento recorrente.

Agora, esse passo a mais, de um um caça ter lançado bombas perto do navio britânico, é uma escalada bastante grande e que estranha não ter nada que comprove, ainda mais em momento como esse (próximo do exercício militar da Otan). Se fosse pra mostrar força perante o Ocidente, Putin estaria mais do que nunca divulgando esse fato.

Tem mais pontos de interrogação do que certezas sobre o que efetivamente ocorreu ali.

A chancelaria russa anunciou a convocação do embaixador britânico, enquanto o Ministério da Defesa cobrou uma investigação detalhada do Reino Unido sobre o caso. Esse tipo de ação vai ter algum resultado prático ou é apenas uma formalidade?

Esse tipo de ação é relativamente normal em picos de tensão, principalmente se o governo quer dar mais destaque à situação. Por isso, parece-me que esta ação é mais voltada para o público interno do que uma sinalização para os outros governos. Reforça muito mais a ideia de uma propaganda interna do que externa.

Neste momento, há uma busca de uma normalização nas relações entre Rússia e Estados Unidos. A definição da volta do embaixador russo a Washington depois de três meses e a própria reunião de cúpula com Biden, que teve cerca de três horas de duração, demonstram muito mais uma tentativa de normalização do que de tensionamento.

Então é possível dizer que a situação de ontem tem mais relação com as eleições legislativas russas, marcadas para setembro, do que o próprio exercício da Otan?

Com certeza, porque o povo russo gosta de um líder forte. Essa visão é algo realmente inerente à cultura russa. O Império russo foi um dos mais importantes do século XVIII em diante, considerando a política internacional. Então essa visão de Putin como um líder que faz o Ocidente, em especial os EUA, respeitarem a Rússia, é algo que toca muito fundo na cultura russa.

O processo eleitoral marcado para setembro vai ocorrer em meio a polêmicas, com críticas da ONU sobre o ataque a liberdades civis no período anterior à eleição, além da pressão internacional pela perseguição às organizações ligadas a Alexei Navalni. Como esse tipo de pressão ecoa na sociedade russa?

Internamente, eu não acho que gere qualquer efeito. Mas pode começar a criar um ambiente nas sociedades ocidentais que reforce o antagonismo com a Rússia, o que pode levar a surgirem movimentos nas sociedades civis contra produtos russos, por exemplo.

Como o governo Biden, que propõe a reaproximação dos EUA com os aliados da Otan, e critica a Rússia em temas de cibersegurança, afeta o comportamento russo perante o mundo?

Eu acredito que estamos voltando ao curso normal das relações entre os dois países. O governo Trump é que foi algo completamente fora dos padrões, em que ele quase bajulava o Putin, e não houve nenhuma acusação séria do governo americano, nem mesmo sobre as interferências russas nas eleições nos EUA e Europa.

Com a retomada da aliança entre americanos e europeus, o núcleo do mundo liberal volta a contrapor a Rússia, e como as armas nucleares estão aí para não serem usadas, o ciberespaço é a nova esfera para esse embate, que já está acontecendo, como foi no caso envolvendo o Colonial Pipeline, nos EUA.

Devemos ter alguma preocupação quanto a uma escalada de tensões envolvendo a Rússia no cenário atual?

Do ponto de vista militar, o ponto mais sensível hoje envolve EUA e China, no mar do sul da China. O que pode haver é um aumento dessa disputa cibernética, envolvendo principalmente EUA, China e Rússia.

E quais as implicações para o Brasil nesse contexto?

O Brasil está isolado diplomaticamente e com suas crises. Ninguém vai se preocupar com o Brasil com relação a esses temas.

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