AFP PHOTO / Brendan Smialowski
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Retórica virulenta aproxima Trump de países do Leste Europeu

Crítica à União Europeia, apoio a causas nacionalistas como o Brexit e ataque à imigração caracterizam americano, que encontrará Putin nesta segunda-feira, 15

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

Os sucessivos atritos com líderes ocidentais, suas críticas à União Europeia, ao livre-comércio, à imigração e o apoio a causas nacionalistas, como o Brexit, escancararam na semana passada a ruptura progressiva entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a Europa Ocidental, parceira privilegiada de Washington nos últimos 70 anos. 

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Em sua nova turnê, o americano causou atritos com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, criticou a premiê britânica, Theresa May, e aproximou seu discurso dos líderes não liberais da Europa do Leste. O afastamento entre Washington e Bruxelas, iniciado em junho, na cúpula do G-7, ficou mais claro. 

Trump afirmou que “os piores inimigos são com frequência aqueles que se dizem melhores amigos”, em uma alusão à Europa Ocidental, parceira histórica. O americano participou em Bruxelas da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e, em Londres, de uma visita de chefe de Estado. 

Nas duas capitais, criticou os parceiros europeus sobre Defesa, apoiou a ala mais nacionalista do Partido Conservador britânico, que quer um Brexit “duro”, e criticou a política imigratória da União Europeia.

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Para analistas, em vários aspectos Trump demonstrou mais uma vez em sua última viagem estar mais sintonizado com os países do Grupo de Visegrado, formado por repúblicas da Europa do Leste – Polônia, Hungria, Eslováquia e República Checa –, do que com Reino Unido, Alemanha e França.  

Nos bastidores de Bruxelas, a convicção é de que Trump considera a União Europeia como um agente hostil aos interesses comerciais e políticos dos americanos – daí viria sua vontade de desarticulá-la. Até mesmo Vladimir Putin, presidente da Rússia, com quem o americano se encontrará nesta segunda-feira, 15, na Finlândia, manifestou preocupação. “Para Donald Trump, todo fator de divisão da Europa é ótimo para incorporar”, afirmou Putin.

Para Sylvie Matelly, economista e diretora do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), o americano menospreza a União Europeia por não compreendê-la. “Trump não entende a Europa. Não compreende por que os excedentes comerciais aconteceram e, para ele, os europeus são trapaceiros, como os chineses”, afirmou a pesquisadora. “Ele não compreende por que os EUA financiam a defesa na Europa e acha que seu país está sendo enrolado há décadas. E ele considera que pode mudar tudo isso.”

Já Patrick Martin-Genier, especialista em relações internacionais e professor do Instituto de Estudos Políticos (Sciences-Po), de Paris, mais do que não compreender a UE, Trump está disposto a trabalhar para desmontá-la. “É alguém que mantém uma atitude irresponsável em relação aos líderes europeus e se intromete de forma escandalosa nas políticas internas, não apenas com Theresa May, mas também com Angela Merkel”, avalia.

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De acordo com Martin-Genier, a questão é saber até onde os europeus ficarão unidos frente à pressão externa exercida por Trump contra a coesão da União Europeia. “Hoje, alguns países, como os do Grupo de Visegrado, se sentem mais próximos dos valores de Trump do que dos da União Europeia”, adverte o especialista. “Até quando a UE poderá aguentar é uma questão importante.” 

 Nos países do Leste Europeu, Trump é com frequência objeto de admiração por parte de líderes de perfil “iliberal” e autoritário. Em sua eleição à Casa Branca, em 2016, a vitória de Trump foi celebrada pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, como a derrota da “democracia não liberal”.

Desde então, a identidade entre os governos populistas e “iliberais” da Europa do Leste com Trump não para de crescer. Como eles, o americano defende fronteiras nacionais fortes, o retorno do nacionalismo e a criminalização da imigração. “Creio que a imigração esteja mudando a cultura, o que é algo muito negativo para a Europa”, afirmou o presidente americano em encontro com May, na sexta-feira.

Temas da agenda econômica, como a expansão do gasoduto Nord Stream, que permite ampliar as ligações de gás entre o país produtor, a Rússia, e o consumidor, a Alemanha, foram criticados por Trump em Bruxelas. Na ocasião, representantes de países do Leste Europeu, como o chanceler da Polônia, Jacek Czaputowicz, manifestaram apoio às teses do americano. 

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