Retorno de Obama a Berlim expõe desgaste internacional do presidente

Nas eleições presidenciais dos EUA de 2008, a artista plástica americana Amber Heyman, de 37 anos, votou no então candidato democrata Barack Obama. Sua decisão foi motivada pela promessa de mudança, mas, acima de tudo, por representar uma ruptura com as controvertidas políticas da gestão de George W. Bush. Quatro anos depois, ela repetiu o voto.

RENATA MIRANDA, ESPECIAL PARA O ESTADO / BERLIM, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2013 | 02h02

Na última quarta-feira, Amber juntou-se a um grupo de manifestantes que protestava contra Obama na região central de Berlim, enquanto o presidente discursava para convidados diante do Portão de Brandenburgo. "Os EUA têm muitos problemas e ele só piorou a situação", disse Amber enquanto segurava um cartaz com a frase "Obama, você teve a chance de grandeza. Fracasso épico". "Esses tipos de políticas eu esperava do Bush, mas não de Obama."

A insatisfação de Amber é apenas um sinal do que especialistas políticos ouvidos pelo Estado definem como uma "perda de entusiasmo" com o presidente. A complicada situação interna na qual Obama se encontra, com o escândalo de seu programa de espionagem em telefones e na internet, também não ajuda sua popularidade - a aprovação do presidente atingiu seu ponto mais baixo em 18 meses, chegando a 45%, segundo uma pesquisa da CNN divulgada na segunda-feira.

"As circunstâncias mudaram e muitas das políticas adotadas por Obama foram decepcionantes", explicou o analista político Gero Neugebauer, da Freie Universität, em Berlim. Segundo ele, um dos maiores sinais dessa mudança foi o discurso que o presidente deu esta semana na capital alemã.

'Obamania' em crise. Ao contrário de 2008, quando foi recebido como uma celebridade internacional em Berlim, a recepção desta vez foi mais comedida. A começar pelo público presente em seu discurso: há cinco anos, cerca de 200 mil pessoas se aglomeraram na região do Tiergarten, no centro da cidade, para ouvir o que o democrata tinha a dizer.

Desta vez, apenas 4 mil convidados puderam assistir ao discurso de perto. A justificativa oficial para o evento ter sido fechado foi a questão da segurança, mas críticos dizem que a equipe de Obama foi cautelosa para evitar uma embaraçosa comparação caso poucas pessoas comparecessem ao local. "Em 2008, o discurso de Obama tinha frescor e era cheio de ideias", disse Neugebauer. "Suas declarações esta semana, no entanto, pareceram fazer parte de um ato teatral."

A imprensa alemã também perdeu o encanto com o americano. Na época de sua visita, em 2008, a revista Der Spiegel, principal semanário da Alemanha, estampou uma foto de Obama na capa com a manchete "O presidente do mundo".

Cinco anos depois, a manchete da revista que circulou uma semana antes da chegada do líder americano dizia "O amigo perdido", sobre uma imagem que juntou Obama ao presidente John F. Kennedy, que fez há cerca de 50 anos seu célebre discurso "Ich bin ein Berliner" ("Eu sou um berlinense").

"A 'Obamania' acabou porque Obama, aos olhos do público internacional, não cumpriu muito do que prometeu, como o fechamento da prisão de Guantánamo", afirmou Thomas Risse, do Instituto de Ciência Política Otto Suhr, de Berlim. "Ele era um símbolo de esperança para milhões, mas esse entusiasmo desapareceu."

O analista político Jackson Janes, do Instituto Americano para Estudos Contemporâneos Alemães, da Universidade Johns Hopkins, acredita que o público estabeleceu padrões altos demais para Obama e, por isso, a decepção era inevitável. "Em 2008 ele era uma espécie de astro do rock, mas, quando você está em Washington por cinco anos, é natural que as pessoas fiquem decepcionadas."

O analista político alemão Thomas Greven concorda com impossibilidade de atender a todas as expectativas construídas ao redor do líder americano.

"A realidade de governar deixou os cabelos de Obama grisalhos e transformou muitos de seus partidários em céticos porque a mudança não é o trabalho de uma única pessoa", disse Graven. "Obama fracassou em engajar os cidadãos americanos e fez muito pouco esforço para engajar os cidadãos de outras partes do mundo."

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