Reuters/Stringer
Reuters/Stringer

Retorno de presidente a Istambul selou fracasso de movimento

Chegada de Erdogan tranquilizou potências preocupadas com vácuo de poder em país deregião que vive caos

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2016 | 16h04

GENEBRA - O desembarque do presidente turco, Recep Erdogan, em plena madrugada de deste sábado, 16, no aeroporto de Istambul deixou claro a fragilidade do movimento militar que pretendia destituí-lo.

Ancara não estava ainda sob controle. Mas sua chegada na cidade turca, interrompendo férias num balneário no sul do país, também tranquilizou potências estrangeiras, alarmadas com as consequências de um eventual vácuo de poder num dos países mais importantes de um região que já vive o caos.

“A Turquia tem um governo democraticamente eleito e estamos no comando”, disse Erdogan, que contou que o hotel onde ele estava foi atacado logo depois de sua saída. “Não vamos abandonar o país”, insistiu. Para ele, o golpe havia sido um “ato de traição” e alertou que os responsáveis “pagarão um preço muito alto”.

A população desafiou o toque de recolher imposto pelos militares e ocupou ruas e praças. A madrugada deste sábado, 16, ainda foi marcada por ataques contra o Parlamento e tiroteios. Sedes de emissoras de TV foram depredadas e jornalistas atacados. Já era início da manhã quando as televisões mostraram ao vivo grupos de soldados se entregando. Líderes da oposição que não medem críticas a Erdogan deixaram claro que não apoiavam o golpe, entre eles o partido curdo HDP. “A única solução é a política democrática”, declarou um de seus líderes.

Oito militares pediram asilo na Grécia, enquanto um grupo fez circular um e-mail alertando que o movimento golpista não tinha acabado. Uma fragata ainda foi sequestrada pelos golpistas e alguns dos chefes militares continuavam até meados da tarde de sábado sequestrados. Mas, para o governo, o golpe estava “90% terminado”.

Pela Europa, o governo turco emitiu comunicados para dar sinais de que estava no comando. “A tentativa (de golpe) foi derrotada pelo povo turco em unidade e solidariedade”, disse uma nota emitida pelas embaixadas turcas. “Nosso presidente e governo estão no comando. As Forças Armadas turcas não estiveram envolvidas em sua totalidade no golpe. Foi apenas um grupo dentro dos militares e recebidos com uma resposta que mereciam por nossa nação”, indicou.

Mas não faltaram os alertas de que o movimento seria usado por Erdogan para reforçar ainda mais seu poder. O presidente, depois de mais de uma década no poder, havia conseguido acalmar diversos grupos diante do crescimento econômico no país. Ele ainda havia distribuído cargos a seus aliados, na esperança de evitar um eventual golpe.

Mas com a crise internacional, a chegada de mais de 2,7 milhões de refugiados – principalmente da Síria, gestos autoritários e uma série de atentados, Erdogan havia dividido a sociedade. A guerra na Síria ainda desbordou para o lado turco, já fazendo centenas de vítimas do Estado Islâmico.

Nos últimos dias, Erdogan se voltou contra Fethullah Gülen, clérigo adversário do presidente turco, por ter supostamente promovido o golpe. No Judiciário e nas Forças Armadas, o governo iniciou uma limpeza geral de qualquer pessoa com simpatias a líderes da oposição.

Falando dos EUA, Gülen negou “categoricamente” qualquer envolvimento com o golpe. “Condeno o golpe militar. Governos devem ser vencidos pelas eleições”, insistiu. Segundo ele, era “especialmente insultante” ser acusado pelo golpe depois que ele mesmo sofreu diversas tentativas de derrubada por décadas.

Entre as entidades de direitos humanos, o temor é de que Erdogan responda ao golpe com uma repressão ainda maior. A Anistia Internacional pediu uma investigação independente. Mas alertou que Erdogan não pode abrir mão dos direitos humanos. O relator da ONU para Liberdade de Expressão, David Kaye, pediu mais garantia à imprensa, sob ataque no governo de Erdogan. 

Tudo o que sabemos sobre:
IstambulTurquiaParlamento

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.