Retrato da Berlim nazista

Livro sobre a resistência ao nazismo, lançado nos EUA, é uma obra-prima do humanismo

ROGER COHEN, THE INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2010 | 00h00

Como foi a sensação? Era a pergunta que eu me fazia nos anos em que morei em Berlim. O que sentiram os moradores do bairro de Gruenewald ao verem seus vizinhos judeus marchando de cabeça baixa até a estação de trem mais próxima para serem transportados para a morte? Agora eu sei, graças ao extraordinário romance de Hans Fallada, Every Man Dies Alone (Todo Homem Morre Sozinho, em tradução livre), que acaba de ser publicado nos EUA após mais de 60 anos de seu lançamento na Alemanha.

Fallada, nascido Rudolf Ditzen, escreveu o romance em menos de um mês, logo após a guerra e pouco antes de morrer, em 1947, aos 53 anos. O inferno nazista evocado por ele é completo e vivo, mais recriado do que lembrado. A prosa é sinuosa e corajosa, como a cidade que ele descreve. O diálogo inclina-se para uma brincadeira sádica dotada de uma lógica bárbara capaz de deixar o leitor sem fôlego.

Every Man Dies Alone conta a história de um casal berlinense, Otto e Anna Quangel. A morte do filho único no front os tira do conformismo. A reação deles é minimalista - escrevem cartões- postais denunciando Hitler, que são enviados a esmo -, mas contém a imensidade da resistência num mundo no qual a desobediência equivale à morte. O livro tem como base a história verdadeira de Otto e Elise Hampel, cuja campanha de cartões-postais irritou a Gestapo - até a captura do casal, em outubro de 1942, e sua subsequente decapitação.

Fallada, que foi viciado em morfina, obteve os arquivos policiais do caso Hampel por meio de um amigo, em 1945. Ele escreveu um relato jornalístico naquele mesmo ano. Depois, num surto de criatividade, o romance. A comparação entre a verdade da ficção e as primeiras impressões do jornalismo nunca foi ilustrada de maneira tão ampla. O livro pulsa com a vida nas ruas de uma cidade aterrorizada, repleta de imoralidade, suspeita, alcoolismo, desespero e assassinatos. Proclama o sadismo bestial do qual o homem é capaz e a imensa estatura moral da decência.

Fallada apanha a intersecção entre crime monstruoso e "cómédia absurda" na intoxicação pelo poder. O confronto entre o Inspetor Escherich e Quangel é inesquecível. Depois de apanhar sua presa, Escherich manifesta seu desprezo por esse "inseto" que luta contra um "elefante". "Afinal, o que você esperava, Quangel? Você, um trabalhador comum, lutando contra o führer, que é apoiado pelo partido, pelo Exército, pela SS, pela SA?" Quangel tenta se explicar. "Se um homem percebe que não lhe resta opção senão lutar, então ele luta, seja com outros ao seu lado ou não."

Escherich parece impassível, até ver Quangel sendo torturado. Então, algo se rompe. Ele traz a pistola à própria cabeça com as últimas palavras. "Sou seu único discípulo, Otto Quangel." Pode ser que isso seja verdade. Os cartões-postais foram entregues à polícia por berlinenses aterrorizados, mas a humanidade é o discípulo de Quangel.

A "comédia absurda" prossegue e nos confronta com o dilema existencial: optar pela decência e seus perigos ou pelo conformismo e seus confortos? Como observou Hanna Arendt: "Sob o terror, a maioria das pessoas se submete, mas algumas não o fazem. Do ponto de vista humano, nada mais é exigido para que este planeta continue a ser um lugar adequado para os seres humanos." No casal Quangel, Fallada criou um símbolo imortal daqueles que lutam e "reagem contra o mal, além de toda a maldade", redimindo assim a todos nós. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É ESCRITOR BRITÂNICO E COLUNISTA

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