AP Photo/Evan Vucci
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Retrospectiva 2018: Kim e Trump, da tensão pré-guerra ao aperto de mão

Península da Coreia viveu reviravolta diplomática com transformação em tempo recorde de um clima de pré-guerra em uma oportunidade única para a paz

O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2018 | 14h27

SEUL - A Península da Coreia viveu uma reviravolta diplomática neste ano, com direito a um encontro histórico entre Donald Trump e Kim Jong-un e a transformação, em tempo recorde, de um clima de pré-guerra em uma oportunidade única para que a paz seja enfim alcançada nos dois países que a dividem.

Após um 2017 marcado por incontáveis testes de armas por parte da Coreia do Norte e a irrupção de um tom desafiador de Trump em relação à postura do regime do país asiático, o governo em Pyongyang optou, de maneira muito calculada, por levantar uma bandeira branca no dia do ano-novo. Kim aceitou retomar o diálogo com a Coreia do Sul em resposta a um convite feito pelo presidente Moon Jae-in para que a Coreia do Norte participasse dos Jogos Olímpicos de Inverno que o país sediaria em fevereiro.

O governo norte-coreano enviou então os seus primeiros representantes à Coreia do Sul desde 2014, entre eles Kim Yo-jong, irmã de Kim Jong-un. A aproximação deu frutos muito rapidamente, e Moon e Kim acabaram se encontrando três vezes no curto espaço de seis meses. Uma verdadeira conquista, levando-se em conta que os líderes anteriores das duas Coreias mal conseguiram fazer duas reuniões ao longo de 72 anos.

Estes encontros foram, mais tarde, fundamentais para que os líderes de Estados Unidos e Coreia do Norte se reunissem pela primeira vez na história e falassem sobre o fim do programa nuclear norte-coreano. O regime fez de fato o convite a Trump em março, por meio da missão sul-coreana que tinha ido a Pyongyang para preparar a primeira cúpula do ano entre as Coreias.

O presidente americano, que costuma exaltar as próprias habilidades de negociação no mundo dos negócios, aceitou a proposta convencido de que seus antecessores não tinham conseguido esse feito exatamente por rejeitarem a possibilidade de ter uma aproximação com o líder do regime. Mesmo assim, a reunião esteve a ponto de desandar por causa das desavenças em torno de um possível modelo para desarmar o regime (que rejeitou plenamente a solução líbia), e só um segundo encontro - de surpresa e em sigilo - entre Kim e Moon, em 27 de abril, salvou a situação e possibilitou finalmente a histórica cúpula de junho, com Trump, em Cingapura.

Lá, as duas singulares figuras pareceram mostrar boa sintonia e acabaram assinando uma declaração se comprometendo a abrir uma nova era de relações após quase sete décadas em estado de guerra após o conflito que arrasou a Península entre 1950 e 1953.

Antes de tudo, as partes aceitaram se empenhar na total "desnuclearização da Península" se Washington garantir a sobrevivência do regime. O documento representa um enorme avanço em contraste com o panorama de 2017, mas coloca dúvidas sobre a sustentabilidade do processo de diálogo por carecer de detalhes quanto a prazos para a realização do suposto desarmamento norte-coreano.

A maioria dos analistas considera genuíno o interesse do regime em diminuir a tensão e apostar no desenvolvimento da economia, mas vê como quase impossível um abandono total do programa nuclear.

Embora EUA e Coreia do Norte tenham se mostrado dispostos a realizar um novo encontro, o ano termina com dúvidas sobre a negociação e com a sensação de que a falta de estrutura técnica do acordo de Cingapura exigirá um longo processo diplomático para cristalizar uma desnuclearização norte-coreana, mesmo que parcial.

Por sua vez, a Coreia do Sul se mostra favorável a começar a aliviar gradualmente as sanções contra a Coreia do Norte para acelerar o diálogo sobre o desarmamento e fazer com que a sua aproximação com o vizinho não volte a azedar, como já aconteceu. / EFE

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