Etienne Laurent/EFE
Etienne Laurent/EFE

Retrospectiva: Hollande desiste de tentar reeleição em um ano marcado pelo atentado em Nice

Presidente lida com um nível de impopularidade sem precedentes, agravado pela sensação de insegurança no país e pela polêmica reforma trabalhista

O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2016 | 15h29

PARIS - O massacre de Nice, cometido por um terrorista jihadista que atropelou com um caminhão uma multidão na festa nacional de 14 de julho, abriu novas fendas na sociedade da França, desencantada com a gestão de um presidente, François Hollande, que não tentará a reeleição. Embora o ano de 2016 não tenha atingido os sangrentos níveis de 2015, voltou a evidenciar que o país ainda é um alvo prioritário do grupo Estado Islâmico (EI).

A Eurocopa, torneio de futebol continental organizado neste ano pela França, parecia o alvo perfeito para que o terrorismo voltasse a atingir o país, e por isso foram adotadas medidas extraordinárias de segurança. Somente quatro dias depois da final, quando o governo comemorava o clima tranquilo do torneio, o tunisiano Mohamed Lahouaiej Bouhlel usou um caminhão frigorífico em Nice para atropelar centenas de pessoas que assistiam aos fogos de artifício da festa em comemoração ao aniversário da Queda da Bastilha. O massacre deixou 86 mortos e mais de 300 feridos. Bouhlel acabou morto pela polícia.

A princípio, as investigações apontaram para um ato isolado cometido por um homem radicalizado poucas semanas antes do atentado terrorista. No entanto, pouco depois foi descoberto que o ele, que havia sido descrito por pessoas próximas como muçulmano não praticante e de vida dissoluta, previa cometer um atentado há meses e inclusive tinha tirado fotos do local do ataque um ano antes.

Bouhlel contou com a cumplicidade de um grande número de pessoas - em dezembro foram detidas mais dez supostamente relacionadas ao caso -, entre elas dois albaneses que supostamente lhe proporcionaram ajuda logística.

A praga do terrorismo organizado ou inspirado pelo Estado Islâmico alcançou também a Igreja cristã, com o assassinato de um sacerdote em uma paróquia da Normandia. Em 26 de julho, dois homens armados com facas e com falsos artefatos explosivos entraram na igreja de Saint-Étienne du Rouvray, na periferia de Ruan, quando era realizada a missa e se fecharam nela com seis reféns: o padre, dois fiéis e três freiras. Após degolar o pároco Jacques Hamel e deixar ferido outro idoso, os dois terroristas saíram da igreja gritando "Allahu Akbar" (Deus é grande) e morreram após serem atingidos por disparos da polícia.

Em outro ataque, ocorrido em junho em Magnanville, a noroeste de Paris, que foi reivindicado posteriormente pelo Estado Islâmico, um homem assassinou com uma faca um casal de policiais em sua casa e diante de seu filho de três anos.

Essa situação de insegurança piorou a reputação de Hollande como líder da nação. Mas sua polêmica reforma trabalhista foi ainda pior, levando ao longo de meses centenas de milhares de manifestantes às ruas.

Com um nível de impopularidade sem precedentes, Hollande surpreendeu em dezembro ao anunciar que não concorrerá à reeleição nas disputas presidenciais previstas para abril e maio de 2017. Dessa maneira, ele se transformou no primeiro presidente em exercício durante a V República a não disputar um segundo mandato.

Sua renúncia abriu ainda mais o leque de candidaturas na esquerda, que já conta com dois candidatos fortes à margem do Partido Socialista: o ex-ministro de Economia Emmanuel Macron, liberal, e o esquerdista Jean-Luc Mélenchon.

Pouco depois do anúncio de Hollande, seu até então primeiro-ministro, Manuel Valls, deixou o governo e se candidatou às primárias do Partido Socialista, nas quais enfrentará os ex-ministros Arnaud Montebourg, Benoit Hamon e Vincent Peillon, entre outros, para conseguir a candidatura à presidência pela legenda. Após a saída de Valls, o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, assumiu as rédeas do governo como primeiro-ministro.

Na direita, o também ex-primeiro-ministro François Fillon levou a melhor nas primárias ao vencer Nicolas Sarkozy e o grande favorito, Alain Juppé, com sua mensagem de reformas liberais.

Apesar de tudo, as pesquisas seguem apontando a ultradireitista Marine le Pen, líder da Frente Nacional, como favorita no primeiro turno, que será realizado no dia 23 de abril, embora não no segundo e definitivo, marcado para 7 de maio. / EFE

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