REUTERS/Lean Daval Jr
REUTERS/Lean Daval Jr

Retrospectiva: Presidente das Filipinas causa polêmica com guerra ao tráfico violência

Rodrigo Duterte deu permissão explícita a policiais para atirarem e matarem qualquer suspeito que resista à prisão; operações policiais no país já deixaram mais de 2 mil mortos

O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2016 | 09h17

MANILA - A personalidade irreverente e imprevisível do presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, sua violenta guerra contra o tráfico de drogas e seu repúdio aos EUA renderam ao político manchetes na imprensa de diversos países em 2016.

Desde o início da campanha para presidente, que começou em fevereiro, Duterte mostrou com vários discursos polêmicos que, apesar de ganhar cada vez mais relevância internacional, não estava disposto a mudar a espontaneidade que marcou toda sua corrida política.

Um dos primeiros escândalos repercutidos na mídia foi um discurso no qual ele lamentou, em tom irônico, não ter sido o primeiro a abusar sexualmente da missionária australiana Jacqueline Hamill, violentada e assassinada em 1989 no motim de uma penitenciária em Davao, quando ele ainda era prefeito da cidade. "Por um lado, eu estava furioso porque a estupraram. Mas era tão bonita. O prefeito deveria ter sido o primeiro", disse Duterte em abril durante um comício.

Depois de ganhar as eleições em maio, vieram as reiteradas incitações à violência, nas quais ele pedia a policiais e civis que matassem traficantes e usuários para acabar com o consumo de drogas, que segundo ele é um dos maiores problemas das Filipinas.

"Estes filhos da p*** estão destruindo nossas crianças. Estou alertando: não vá por esse caminho, mesmo que você seja um policial, porque eu realmente vou te matar", avisou Duterte em um discurso feito poucas horas depois de sua nomeação para presidente das Filipinas, em 30 de junho. "Se você conhece algum viciado, vá em frente e mate você mesmo, porque pedir que seus pais façam isso seria doloroso demais", acrescentou.

Sua batalha contra as drogas, para a qual também deu permissão explícita a policiais para atirarem e matarem qualquer suspeito que resistisse, deixou cerca de 6 mil mortos, conforme números oficiais. Desse total, mais de 2 mil pessoas morreram em operações policiais, e cerca de 4 mil foram assassinadas por grupos armados que decidiram fazer justiça com as próprias mãos.

O elevado número de vítimas fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU), a União Europeia (UE) e os EUA, criticassem Duterte abertamente por não respeitar os direitos humanos. Após as críticas, ele disse que a ONU é "inútil" e ameaçou tirar seu país da organização, xingou a UE, lembrando os posicionamentos questionáveis do bloco, como a rejeição aos refugiados da guerra na Síria.

As palavras dirigidas ao governo americano foram ainda mais duras. Duterte atacou o presidente Barack Obama, a quem chamou de "filho da p***" poucas horas antes de uma reunião em setembro. O encontro não aconteceu.

Duterte também usou o mesmo tom contra o ex-embaixador dos EUA em Manila, Philip Goldberg, e até mesmo contra o papa Francisco, criticado por criar grandes engarrafamentos na cidade durante sua visita em janeiro de 2015.

Poucas semanas após criticar Obama, o líder filipino confirmou o distanciamento das Filipinas com relação aos EUA, que colonizaram o país por 48 anos (1898 a 1946) e que desde a independência foi considerado um de seus principais aliados.

"Nesta sala anuncio minha separação dos EUA, tanto militar quanto economicamente", afirmou Duterte em outubro, em discurso feito em Pequim ao lado do presidente chinês, Xi Jingping. "Me alinhei com sua corrente ideológica e talvez também vá à Rússia para falar com Putin e dizer a ele que somos três contra o mundo: China, Filipinas e Rússia", acrescentou.

Veja abaixo: Presidente das Filipinas diz que já matou para dar exemplo

Além de anunciar a intenção de colocar um fim a importantes resoluções militares assinadas com os americanos, o presidente filipino assinou vários acordos comerciais com a China e anunciou a possível compra de armamentos chineses. "A China está me pressionando com o assunto das armas, já têm listas. Vou aceitar (...). Não são gratuitas, mas um empréstimo que podemos devolver em 25 anos", explicou ele.

Assim, o país se transformou de uma das nações mais estáveis do sudeste asiático no âmbito econômico para uma das mais polêmicas e criticadas por organizações internacionais. / EFE

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