REUTERS/Enrique Marcarian
REUTERS/Enrique Marcarian

Retrospectiva: Queda da esquerda nas Américas por frustração por expectativas não cumpridas

Argentina, Brasil, EUA são alguns dos países cujos governos passaram por trocas; Equador e Chile, que terão eleições em 2017, podem sofrer influência

O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2016 | 05h00

BOGOTÁ - O continente americano viveu em 2016 uma guinada política que deu vida aos governos de direita e fechou um ciclo para a esquerda na região, em razão da frustração gerada entre os cidadãos pelas expectativas não cumpridas que reflete o ocorrido em outras regiões do planeta, como a Europa.

Esta transição foi presenciada em países como a Argentina, onde ocorreu uma mudança de 180 graus após 12 anos de governos de esquerda - Néstor Kirchner (2003-2007) e sua mulher Cristina (2007-2015) - com a vitória nas últimas eleições presidenciais de Mauricio Macri, um empresário com uma ideologia de abertura econômica própria da direita.

O mesmo ocorreu no Brasil, que fechou um ciclo de governos de esquerda após o impeachment de Dilma Rousseff, que governou o país por cinco anos e deu continuidade à administração iniciada por Luiz Inácio Lula da Silva com o Partido dos Trabalhadores (PT) em 2003.

A esses exemplos se soma o dos Estados Unidos, onde Donald Trump, empresário e republicano com propostas econômicas e políticas protecionistas, saiu vitorioso nas eleições presidenciais do dia 8 de novembro.

Essas mudanças, que poderiam se replicar durante os próximos anos em outros países como Equador e Chile, que realizarão eleições em 2017, são o resultado de uma tendência mundial, dos novos debates políticos e das promessas não cumpridas por parte daqueles que se alçaram como uma possível solução para os problemas sociais mais latentes na região.

Essa foi a explicação dada à agência EFE pela analista política Elisabeth Ungar Bleier, para quem tais mudanças são "uma tendência que não se restringe à América Latina, mas é mundial".

Como exemplo, a especialista citou o caso da Hungria, onde "há um governo de direita", do partido Fidesz, e comentou a possibilidade de "Marine Le Pen vencer as próximas eleições na França".

Além disso, Elisabeth responsabilizou os líderes da esquerda pelo fechamento deste ciclo político, nos quais os cidadãos "depositaram expectativas para uma mudança de governo e ideologia", mas que, por fim, acabaram frustrando essas expectativas.

"(A corrupção) é outro dos grandes pecados dos governantes de esquerda da região, que caíram exatamente nos mesmos vícios e problemas que os governos que criticavam", comentou a especialista.

Nesta mesma linha se expressou o analista político León Valencia Agudelo, que afirmou que o desastre da esquerda na região se deve à corrupção e ao uso de "recursos públicos para benefícios individuais", junto à impossibilidade de criar "soluções econômicas viáveis e próprias".

Para Valencia, outro fator que determinou a morte política da esquerda foi a mudança dos eixos temáticos nos debates sociais.

"Agora discutimos sobre minorias étnicas, raciais, sexuais, migração, família, aborto, gays e isso é uma virada para uma discussão sobre identidade em um mundo no qual o debate passou a ter características diferentes de antes", opinou o especialista.

Para Valencia, que dirige a fundação colombiana Paz e Reconciliación, a discussão de temas que interferem nas relações interpessoais causa "ruptura nas sociedades", o que "causa uma reação para proteger seu habitat, seu mundo", o que acaba se refletindo em "uma reação muito dura da direita tradicional".

O surgimento desses novos debates deixa sem argumentos a esquerda, que explorava em seus discursos uma luta em favor da igualdade social, ao que se une a perda de seus principais referenciais, como Hugo Chávez, morto em 2013, e Fidel Castro, que morreu em novembro deste ano.

"(Chávez) era um símbolo dessa corrente política, mas, assim como em outros lugares onde se ensaiaram essas alternativas, o povo acabou virando as costas", opinou Valencia, que também citou outros exemplos como o ocorrido no referendo de fevereiro deste ano na Bolívia, no qual acabou rejeitada a candidatura de Evo Morales para uma terceira reeleição.

"Com a saída de Evo, é possível que saia (Rafael) Correa (Equador), o que encerraria um ciclo de populismo que começou a acelerar sua derrocada com a morte de Chávez, um símbolo que esse ciclo estava terminando".

Ao contrário de Valencia, Elisabeth estimou que a morte de Chávez "pode ter tido influência", na queda da esquerda, "mas não é o principal detonador" para o enfraquecimento dessa corrente, e citou o caso da Nicarágua como exemplo, onde Daniel Ortega foi eleito em novembro para um quarto mandato presidencial, o terceiro de forma consecutiva.

Mas os dois especialistas convergem em afirmar que o ciclo que se inicia para a direita sepulta um da esquerda que obteve sucesso 20 anos atrás com uma revolução na esfera pública que dá passagem a um novo período onde o populismo da direita é o protagonista, sem um prazo de validade definido. / EFE

 

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