Reunião com neto desaparecido ocorreu a portas fechadas

Notícia da descoberta do jovem e reencontro com avó aumenta a procura por exames de DNA e comove papa Francisco

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2014 | 02h04

Após 36 anos, Estela de Carlotto, líder da organização de defesa dos direitos humanos Avós da Praça de Maio, encontrou-se ontem pela primeira vez com seu neto, Guido Montoya de Carlotto. Ele foi sequestrado em 1978 por militares argentinos, cinco horas após o nascimento em uma maternidade clandestina do Hospital Militar de Buenos Aires.

A reunião de família ocorreu a portas fechadas para manter a privacidade do jovem, que usa o nome com o qual seus pais adotivos o batizaram, Ignácio Hurban, e trabalha como pianista. O deputado Remo de Carlotto, filho de Estela e tio do rapaz, disse que a família estava "muito feliz" por encontrar o sobrinho.

Ao sair de sua casa no Distrito de Tolosa, município de La Plata, capital da Província de Buenos Aires, Estela afirmou ontem que era como se estivesse sonhando. "Agora me dedicarei a Guido, meu neto, e também a tudo o que ele precisar. Mas continuarei indo às Avós para procurar todos os netos que faltam", disse.

A notícia da descoberta de Estela e a reunião com o neto desaparecido levou a inúmeros telefonemas para a sede das Avós da Praça de Maio. A maioria das ligações era para solicitar o exame de DNA que pode verificar quem são os bebês sequestrados pela ditadura.

As organizações de defesa dos direitos humanos calculam que 500 bebês foram roubados pela ditadura militar argentina. O plano sistemático de apropriação das crianças - que foi único na história da América Latina - envolveu militares, policiais e dezenas de civis.

Os bebês nasciam em maternidades clandestinas e nas horas ou dias seguintes eram arrancados dos braços de suas mães e entregues a famílias de militares ou policiais. Em alguns casos, as crianças foram adotadas pelos torturadores de seus pais.

Papa. Em abril do ano passado, durante uma reunião em Roma, o papa Francisco afirmou a Estela de Carlotto que a Igreja Católica colaboraria nas investigações sobre o paradeiro dos bebês sequestrados. Em seguida, o papa ordenou às paróquias que abram seus arquivos para ver se há pistas sobre o paradeiro das crianças.

Ontem, o monsenhor Guillermo Karcher, membro do cerimonial pontifício, declarou que o papa ficou "comovido" com a notícia. Segundo Karcher, "a descoberta (de Guido) é um raio de luz". "É preciso sempre celebrar a vida", disse.

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