Reunião de exilados iraquianos termina em acordo

Exilados iraquianos concluíram formalmente hoje uma conferência concordando com o tamanho de um comitê de liderança que, segundo esperam, irá substituir o regime de Saddam Hussein em Bagdá. Não ficou imediatamente claro, entretanto, se os exilados resolveram a exata composição do comitê. Logo após o encerramento oficial da conferência, eles entraram num encontro a portas fechadas.Nesse encontro, foi definido que o comitê - que deve definir políticas e agir como uma ligação entre eles e a comunidade internacional até uma eventual queda de Saddam, e depois - terá 65 assentos, 32 dos quais serão ocupados por muçulmanos xiitas, disseram delegados.A sessão de encerramento da conferência foi conturbada pelo abandono de delegados representando cinco grupos xiitas, que alegaram se opor ao aparente domínio de um partido xiita maior no comitê.Mas líderes dissidentes e o enviado da administração Bush para os exilados, Zalmay Khalilzad, afirmaram que a conferência criou novas esperanças para iraquianos determinados a mudar o regime de três décadas de Saddam."Muitos diziam que eles não podiam fazê-lo, mas eles o fizeram... Você deve dar a eles o benefício da dúvida e dizer que foi um passo positivo na direção certa", enfatizou Khalilzad, num comunicado obtido pela Associated Press.Ahmed Chalabi, líder do Congresso Nacional Iraquiano, disse que os exilados irão voltar a se reunir em 15 de janeiro na região controlada pelos curdos, no norte do Iraque, para decidir quem irá encabeçar o comitê. A reunião deve ser realizada em Irbil.O Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque, xiita, baseado no Irã, ficou com a maior parte dos assentos no comitê de liderança, com grupos curdos devendo ocupar outra grande parte. Dois grupos de oposição, um partido querendo restabelecer a monarquia no Iraque, árabes sunitas e independentes também estarão representados no comitê.O xeque Jamal al-Wakil, chefe de um dos grupos xiitas que abandonaram a reunião, a Organização do Acordo Islâmico, disse a repórteres: "Esta conferência provou ser um meio de impor o controle e a hegemonia do Conselho Supremo. Nós nos recusamos a aceitar a resolução que será aprovada nesta conferência, que dará a apenas um grupo o controle último sobre os xiitas iraquianos"."Essa é outra ditadura que rejeitamos", afirmou al-Wakil.A denúncia sublinhou a profunda divisão existente entre os xiitas iraquianos, que representam 60% dos 22 milhões de habitantes do Iraque. A divisão é entre liberais e conservadores islâmicos.Massoud Barzani, líder do influente Partido Democrático do Curdistão, disse, durante uma entrevista coletiva, que o encontro foi um sucesso, e que representava a maioria dos iraquianos.Mas "existem algumas outras forças e pessoas que não se uniram a nós. Essas pessoas têm uma longa história de luta contra a ditadura e vamos continuar nossa discussão com elas".Ele pediu por "tolerância, perdão" e que os interesses do Iraque sejam colocados em primeiro lugar. "Somos a favor de um novo Iraque, um Iraque para todos", adiantou Barzani.Uma intensa pressão sobre a forma e composição do comitê forçou a conferência, planejada para durar três dias, em Londres, a se prolongar por cinco dias.Jalal Talabani, líder da União Patriótica do Curdistão, disse que o comitê não será dominado por interesses específicos, e representará a diversidade política iraquiana."Queremos que o Iraque seja livre de conflito sectário e étnico, onde todas as pessoas possam participar livre e democraticamente (da vida iraquiana)", anunciou Talabani, numa entrevista coletiva que encerrou o encontro. Numa entrevista à Lebanese Broadcasting Corp., o vice-presidente iraquiano, Taha Yassin Ramadan, condenou os dissidentes por apoiarem planos dos EUA de atacarem o Iraque, mas acrescentou que a "agenda" dos exilados "não preocupa o Iraque".Os EUA, que têm ameaçado derrubar Saddam por supostamente estocar armas de destruição em massa, ajudaram a organizar a reunião de Londres.Depois da abertura da conferência na sexta-feira, delegados rapidamente chegaram a um consenso sobre vários pontos - o governo de transição que deverá substituir Saddam, e que o presidente e alguns de seus lugares-tenentes deverão ser julgados por crimes de guerra.Mas outras questões provaram ser muito mais difíceis, como quem deveria definir o futuro político do Iraque, com cada facção querendo fazer parte do comitê de liderança.Delegados da conferência e congressistas americanos expressaram preocupação de que um Iraque pós-Saddam possa afundar no caos. Chalabi, líder do dissidente Congresso Nacional Iraquiano, afirmou que a conferência de Londres enviou uma forte mensagem a Washington, de que os exilados iraquianos podem forjar uma frente unida.

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