Reunião do Conselho de Segurança acirra disputas

Uma reunião do Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Iraque terminou em meio a uma discussão áspera, com os membros do conselho sendo incapazes até mesmo de concordar com questões básicas como uma data para os inspetores de armas apresentarem seu próximo relatório.Diplomatas descreveram a atmosfera no conselho, que se reuniu hoje a portas fechadas por quatro horas, como terrível.O conselho está dividido entre aqueles que apóiam a determinação da administração George W. Bush de usar a força para desarmar Saddam Hussein, e outros, liderados pela França, que querem que as inspeções de armas continuem.No fim da sessão, o embaixador francês, Jean-Marc de la Sabliere, afirmou que a maioria do conselho continuava se opondo ao projeto de resolução patrocinado pelos EUA, e insistiu na proposta francesa de dar mais tempo aos inspetores.O embaixador dos EUA, John Negroponte, não conversou com repórteres, mas a busca de apoio por parte de Washington à sua resolução parecia estar ganhando força entre vários membros indecisos do CS.Ainda assim, embaixadores que pediram para não ser identificados disseram que os norte-americanos não parecem dispostos a aceitar uma solução de compromisso que mantenha a unidade no conselho."Foi um das mais deprimentes reuniões que eu já vi", comentou um embaixador. Outro descreveu o ambiente como "amargo e desagradável".Embaixadores relataram que houve pouca discussão verdadeira sobre os méritos da resolução dos EUA, que é apoiada por Grã-Bretanha e Espanha, ou sobre a proposta francesa. E eles não conseguiram concordar sobre quando o inspetor-chefe deveria apresentar um próximo relatório ao CS, ou como os inspetores deveriam continuar com seus trabalhos enquanto isso.O escritório do secretário-geral Kofi Annan estava revendo um relatório de 17 páginas do inspetor-chefe da ONU, Hans Blix, detalhando o trabalho de sua equipe no Iraque nos últimos três meses.Blix disse na quarta-feira que o Iraque ainda não estava colaborando plenamente, mas ele pareceu pressionar pela continuidade das inspeções de armas como forma de desarmar pacificamente Saddam Hussein. Blix apresentará seu relatório por escrito amanhã.A Rússia tem pressionado por uma solução diplomática para a crise, mas numa conversa telefônica hoje, o presidente russo, Vladimir Putin, e seu colega norte-americano, George W. Bush, prometeram continuar se consultando sobre o Iraque, segundo o Kremlin."Os dois lados expressaram a intenção de intensificar os trabalhos no Conselho de Segurança com o objetivo de desenvolver um plano de ação que garantiria os interesses de toda a comunidade internacional", anunciou o Kremlin.Bush afirmou na quarta-feira que apesar de o regime iraquiano ainda ter tempo para evitar a guerra, as tropas dos EUA estão prontas para o combate. Ele pediu apoio aos aliados.O esboço de resolução autorizando a guerra foi apresentado esta semana por Estados Unidos, Grã-Bretanha e Espanha.Houve sinais de que Bush estava ganhando apoio para uma ação militar. O México alterou sua forte posição antiguerra e pode acabar apoiando a resolução dos EUA.A subsecretária de Estado Christina Rocca foi hoje ao Paquistão para pressionar pelo voto do país.Islamabad não revelou ainda se apoiará a resolução dos EUA, apesar de diplomatas paquistaneses terem dito, em particular, que o Paquistão deve provavelmente se abster.Mas alguns países indecisos no CS, como o Chile, defenderam um plano canadense que visa reconciliar profundas diferenças entre a resolução dos EUA e a proposta francesa. O embaixador do Chile disse que o México também estava interessado em que fosse encontrada uma solução intermediária.A administração Bush já rejeitou a idéia canadense, que daria ao Iraque até o final de março para completar uma lista de tarefas de desarmamento que os inspetores estão compilando.Matemática do ConselhoOs Estados Unidos têm pela frente a difícil tarefa de conquistar nove dos 15 votos no CS para ter sua resolução aprovada - e evitar que a França, China ou Rússia exerçam o direito de veto. Até agora, Washington tem o voto garantido da Grã-Bretanha, Espanha e Bulgária. Alemanha e Síria muito provavelmente votarão contra a proposta que abre caminho para a guerra.Se os países com direito a veto optarem por não exercê-lo e, em vez disso, se abstiverem - já que vêm se manifestando contra a linha-dura de Bush - restam, para serem conquistados, os votos de Paquistão, Chile, México, Guiné, Camarões e Angola. Se o Paquistão realmente se abstiver, os Estados Unidos precisarão, aí, de unanimidade entre os membros latino-americanos e africanos do CS.

Agencia Estado,

27 de fevereiro de 2003 | 18h46

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