Cem Ozdel/Turkish Foreign Ministry via AP
Cem Ozdel/Turkish Foreign Ministry via AP

Reunião entre chanceleres termina sem acordo e Otan teme que guerra na Ucrânia fique mais mortífera

Serguei Lavrov disse que um acordo de cessar-fogo não estava na mesa e precisaria ser discutido entre os presidentes; Dmitro Kuleba se diz disposto a se reunir novamente para discutir maneiras de encerrar a guerra

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 09h15
Atualizado 16 de março de 2022 | 11h30

ANTÁLIA - Os ministros das Relações Exteriores da Rússia e da Ucrânia se reuniram nesta quinta-feira, 10, na Turquia, no contato de mais alto nível entre os dois países desde que a guerra começou em 24 de fevereiro. Apesar das expectativas sobre uma possível resolução, o encontro terminou sem nenhum progresso significativo e com trocas de farpas entre os chanceleres na coletiva de imprensa pós-evento -- o que aumentou a preocupação de aliados ocidentais sobre o prolongamento de um conflito com potencial para se tornar cada vez mais imprevisível.

Logo que a Rússia invadiu a Ucrânia, há duas semanas, havia uma impressão quase unânime de que as tropas russas conseguiriam uma vitória militar rápida e fácil sobre seu vizinho do oeste. Mas agora, com os ucranianos travando uma resistência feroz e as forças russas atoladas fora de quase todas as grandes cidades, a avaliação do governo americano e de seus aliados da Otan mudou. Sem visualizarem um fim claro para a fase militar do conflito, a suposição de momento é de que a guerra entre em uma etapa ainda mais mortífera, causando devastação na Ucrânia e uma enorme crise humanitária.

“Mencionamos um cessar-fogo, mas não houve avanços nesse sentido”, disse o chanceler ucraniano Dmitri Kuleba à imprensa. Mas, segundo ele, as negociações com seu homólogo russo, Serguei Lavrov, ainda devem continuar neste formato. "Queríamos obter um cessar-fogo de 24 horas. Lavrov disse que Moscou queria falar de corredores humanitários", afirmou o chanceler que esperava a abertura de um corredor para retirar civis da cidade de Mariupol, no sudeste da Ucrânia e que está sob intensos bombardeios russos.

Um dos ataques, na última quarta-feira, 9, atingiu uma maternidade e provocou grande revolta internacional. "Antes de mais nada, vim aqui por razões humanitárias, para a retirada de civis. Mas Lavrov não quis prometer nada sobre este ponto", insistiu o chefe da diplomacia ucraniana. Porém, "decidimos continuar nossos esforços e pretendo continuar com este formato".

Lavrov, por sua vez, alegou que um cessar-fogo nunca esteve na mesa de negociação. "Ninguém estava planejando negociar um cessar-fogo aqui", disse, apontando que tais questões devem ser discutidas entre autoridades russas e ucranianas que devem se encontrar novamente em breve em Belarus.

O chanceler russo não deu sinais de fazer concessões. Repetindo as exigências russas de que a Ucrânia fosse desarmada e aceitasse o status de neutralidade, porém, deixou aberta a porta para uma reunião entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski. "Espero que isso se torne necessário em algum momento", disse ele. "Mas o trabalho preparatório precisa ocorrer para isso". Na quarta-feira, em entrevista ao jornal alemão Bild, Zelenski afirmou que o fim da guerra dependeria de um encontro entre ele e Putin.

Esta foi a primeira reunião entre funcionários do primeiro escalão dos governos da Ucrânia e Rússia desde o início da ofensiva de Moscou, há exatamente duas semanas. O encontro, que durou uma hora e 40 minutos, aconteceu na cidade de Antalia, sul da Turquia, na presença do ministro turco das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu.

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Temores de agravamento

Com o conflito entrando em sua terceira semana, a falta de um caminho para a paz faz a Otan temer o início de uma fase ainda mais violenta da guerra, marcada pelas ações de um fator incontrolável: Vladimir Putin. Washington e seus aliados tentam pressionar o Kremlin com todos os tipos de sanções possíveis -- o que até agora teve pouca influência prática sobre o presidente russo, que só intensificou ainda mais sua ofensiva militar.

Na avaliação dos aliados ocidentais, qualquer resultado para o conflito será negativo. Mesmo uma eventual derrota russa provavelmente deixaria a Ucrânia dizimada, com seus vizinhos europeus tendo que arcar com o peso da crise humanitária.

"Quanto mais isso continuar, mais provável será que a Rússia acabe sendo derrotada, mas também mais provável que mais pessoas morram", declarou um diplomata europeu ao The Washington Post, falando sob condição de anonimato.

Mesmo com as perspectivas sombrias, autoridades americanas e europeias não têm se empenhado com prioridade em intensificar canais diplomáticos com a Rússia para negociar um fim para o conflito -- França, Israel e Turquia se apresentaram como possíveis mediadores, mas são vistos pelo Kremlin como atores menores em comparação aos EUA. A falta de tentativas mais incisivas, apontam especialistas, parte de uma percepção dos governos ocidentais de que Putin não é confiável em termos diplomáticos.

Enquanto isso, a atual estratégia dos EUA, de acordo com altos funcionários do governo Biden, continua sendo a tentativa de infligir custos econômicos severos à Rússia, bem como continuar apoiando a Ucrânia militarmente com o fornecimento de material bélico. Contudo, a assistência militar direta dos americanos continua fora de questão.

“É importante lembrar que, durante toda essa crise criada por Putin e pela Rússia, procuramos fornecer possíveis saídas ao presidente Putin”, disse o secretário de Estado, Antony Blinken, a repórteres em Washington na quarta-feira. “Ele é o único que pode decidir se quer ou não tomá-los. Até agora, toda vez que houve uma oportunidade de fazer exatamente isso, ele apertou o acelerador e continuou nessa estrada horrível que ele está seguindo.”

Blinken acrescentou que o governo Biden espera, em última análise, “uma derrota estratégica” de Putin e da Rússia, apesar de quaisquer “ganhos táticos de curto prazo que possa obter na Ucrânia”.

"Conseguiremos isso apoiando os ucranianos em sua luta, permanecendo unidos em responsabilizar a Rússia por meio de sanções devastadoras, isolamento diplomático e outras medidas”, disse Blinken. “E já vimos que a Rússia falhou em seus principais objetivos. Não foi capaz de segurar a Ucrânia. Não será capaz de manter a Ucrânia a longo prazo - novamente, não importa quais sejam as vitórias táticas que possa alcançar."

Bombardeio à maternidade

Um ataque aéreo a um hospital no porto de Mariupol matou três pessoas, incluindo uma criança, informou o conselho da cidade na quinta-feira. Nesta manhã, as forças russas intensificaram o cerco às cidades ucranianas, mesmo quando os chanceleres se reuniam.

O ataque um dia antes na cidade sitiada do sul feriu 17 pessoas, incluindo mulheres esperando para dar à luz, médicos e crianças soterradas nos escombros. Bombas também caíram em dois hospitais em outra cidade a oeste da capital, Kiev.

Enquanto a guerra entra em sua terceira semana, autoridades ocidentais dizem que as forças russas fizeram pouco progresso no terreno nos últimos dias, mas intensificaram o bombardeio de Mariupol e outras cidades, prendendo centenas de milhares de pessoas, com falta de comida e água.

Cessar-fogos temporários para permitir evacuações muitas vezes falharam, com a Ucrânia acusando a Rússia de continuar seus bombardeios. Mas o presidente ucraniano disse que 35.000 pessoas conseguiram sair na quarta-feira de várias cidades sitiadas.

A Ucrânia chamou o ataque à maternidade de "genocídio". "Que país é esse, a Federação Russa, que tem medo de hospitais, tem medo de maternidades e as destrói?" disse Zelenski em um discurso televisionado na noite de quarta-feira, depois de postar imagens dos destroços, mostrando grandes danos ao prédio.

Lavrov justificou durante a coletiva de imprensa o bombardeio ao hospital, alegando que ele estava sendo usado como base por um batalhão nacionalista. "Este hospital pediátrico foi retomado há tempos pelo batalhão de Azov e por outros radicais, e todas as mulheres que iam dar à luz, todas as enfermeiras e todo pessoal de apoio haviam sido expulsos", declarou.

Em todo o país, acredita-se que milhares tenham sido mortos, tanto civis quanto soldados, desde a invasão das forças de Putin. A ONU estima que mais de 2 milhões de pessoas fugiram do país, o maior êxodo de refugiados na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Os combates cortaram a energia da usina nuclear desativada de Chernobyl na quarta-feira, levantando temores sobre o combustível radioativo usado armazenado lá que deve ser mantido refrigerado. Mas a agência de vigilância nuclear da ONU disse que não viu “nenhum impacto crítico na segurança” da perda de energia.

A vice-primeira-ministra ucraniana, Irina Vereshchuk, pediu na quinta-feira aos militares russos que permitam o acesso de equipes de reparo para restaurar a eletricidade da usina e consertar um gasoduto danificado no sul que deixou Mariupol e outras cidades sem aquecimento por dias./AP, AFP, REUTERS e NYT

 

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