Reunião entre EUA e Cuba tem pouco avanço

Sem resultados concretos, encontro de mais alto nível entre os países nos últimos 38 anos ocorre em Havana no contexto da retomada das relações

Cláudia Trevisan, correspondente em Washington, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2015 | 02h05

A primeira reunião de alto nível entre Estados Unidos e Cuba sobre o restabelecimento de relações diplomáticas foi realizada ontem e terminou sem resultados concretos e com uma queda de braço sobre limites da atuação dos futuros representantes americanos em Havana. Para o governo da ilha, as missões devem respeitar os diferentes sistemas "político, econômico e social" e não interferir em assuntos internos.

A crítica à situação dos direitos humanos é uma constante nos pronunciamentos de autoridades dos EUA em relação a Cuba e foi discutida no encontro, segundo a subsecretária do Departamento de Estado para a América Latina, Roberta Jacobson, a mais importante autoridade americana a pisar em Havana em 38 anos.

Segundo ela, a abertura de embaixadas é o aspecto mais simples do processo de retomada da relação entre os dois países, que romperam laços diplomáticos há 53 anos. Outros temas que Jacobson qualificou de "complexos" continuarão a ser discutidos, em um processo para tentar superar "50 anos de um relacionamento que não tinha a confiança como base".

Entre os temas espinhosos, está a demanda americana de indenização pelas expropriações de propriedades e empresas depois da Revolução Cubana, em 1959. O Departamento de Justiça reconhece 5.913 pedidos, em um valor atualizado de US$ 7 bilhões. Do lado cubano, o fim do embargo econômico é "essencial" para a normalização das relações, segundo a representante de Cuba nas negociações, Josefina Vidal, do Ministério das Relações Exteriores.

Haverá pelo menos mais uma reunião antes da decisão de prazos e condições para abertura de embaixadas. Josefina disse que uma das condições para o avanço das conversas é o restabelecimento dos serviços bancários para a seção de interesses de Cuba em Washington, suspensos há um ano em razão de sanções decorrentes da inclusão de Cuba na lista de países que apoiam o terrorismo.

A retirada da ilha dessa relação é um dos pontos do acordo que levou os presidentes Barack Obama e Raúl Castro a anunciar a retomada de relações, em 17 de dezembro.

Os EUA querem que os cubanos tenham livre acesso à sua futura missão em Havana e seus diplomatas não tenham restrições para viajar dentro de Cuba. Também exigem o livre envio de materiais e equipamentos para a embaixada e a inexistência de limites para o número de funcionários.

Os dois lados disseram que o funcionamento das missões estará sujeito à Convenção de Genebra e a tratados internacionais, mas nem sempre concordaram com a interpretação dos textos. Além disso, Jacobson observou que as regras "não respondem" a todas as perguntas de uma relação "tão peculiar".

Em declarações transmitidas ao vivo pelo Ministério das Relações Exteriores de Cuba, Jacobson e Josefina ressaltaram as diferenças e divergências entre seus governos, mas ponderaram que elas não devem ser obstáculo ao restabelecimento de relações diplomáticas.

A cubana defendeu uma relação "civilizada e pacífica". Jacobson afirmou que Washington manterá a pressão por mudanças na área de direitos humanos e deseja levar essas questões diretamente ao governo cubano.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.