Reunião entre Irã e agência da ONU acaba sem acordo

Negociadores da Agência Internacional de Energia Atômica não conseguem convencer Teerã a abrir todas as suas instalações

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h06

Fracassou ontem a tentativa das Nações Unidas de obter acesso às instalações iranianas supostamente envolvidas com seu programa nuclear. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) admitiu que as negociações com o governo de Teerã terminaram sem um acordo.

Para a AIEA, o resultado do diálogo de ontem foi "decepcionante", principalmente porque, apenas três semanas atrás, Teerã havia garantido que daria aos inspetores o acesso a todas as instalações. A agência tentava verificar informações que apontariam para um cenário considerado preocupante para as potências ocidentais: a construção de uma bomba iraniana.

Em novembro, a AIEA tinha emitido um alerta segundo o qual o Irã estava caminhando na direção de uma arma nuclear e vinha intensificando os esforços para conseguir a bomba. De acordo com a agência da ONU, os meses que se seguiram teriam sido usados pelo Irã para conduzir mais experimentos e, suspeita-se, testes de explosão.

Nas últimas negociações, o objetivo declarado da agência era o de obter uma autorização para inspecionar diversas instalações no Irã - entre elas, o complexo militar de Parchin, a cerca de 30 quilômetros da capital. A principal suspeita da comunidade internacional era a de que experiências que poderiam levar à construção de armas atômicas e à obtenção de detonadores para artefatos nucleares vinham se desenvolvendo na base.

O governo de Mahmoud Ahmadinejad, no entanto, insiste que seu programa nuclear não tem fins militares e alerta que Teerã tem o direito de desenvolver a tecnologia, que supriria a demanda iraniana por energia.

Segundo diplomatas consultados pelo Estado, a falta de concessões e a mudança de humor dos negociadores iranianos revelam que a estratégia de Teerã é a de "ganhar tempo".

O processo de desenvolvimento da tecnologia ocorre de forma paralela às negociações que se mantêm entre as principais potências e o Irã - e estão estagnadas há cinco anos. A esperança era a de que pelo menos o organismo da ONU conseguisse chegar a um entendimento sobre o acesso às instalações colocadas sob suspeita pelos inspetores. Mas, segundo declarou o inspetor-chefe da AIEA, Herman Nackaerts, a reunião foi concluída "sem avanços".

Novo encontro. Em duas semanas, será a vez de China, Estados Unidos, França, Alemanha, Grã-Bretanha e Rússia reunirem-se com o Irã, em Moscou. Mas a negação à agência da ONU foi um sinal de que o espaço para um acordo é mínimo.

As potências querem que Teerã suspenda todo seu processo de enriquecimento de urânio, em troca de um pacote de incentivos. Teerã recusa-se a seguir esse caminho e vem mais uma vez manobrando o processo.

Uma carta revelada pela Associated Press, enviada pelos iranianos à UE, indica que Teerã gostaria de promover novas reuniões técnicas antes do encontro em Moscou. Bruxelas estima que não há motivo para o encontro.

Uma declaração de Ahmadinejad em seu site também revelou o tom duro de Teerã na disputa com a comunidade internacional que já se arrasta por uma década. "Se o Irã tivesse a intenção de construir uma bomba, não temeria ninguém, anunciaria isso e ninguém teria como evitar", disse.

A agência de notícias iraniana ainda fez questão de dar destaque às declarações de ontem do presidente russo, Vladimir Putin, de que o Irã tem "o direito absoluto" de desenvolver tecnologia nuclear. A declaração teria sido feita depois de um encontro com Ahmadinejad, na China.

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