Reunião França-África acontece em momento crucial

Jacques Chirac é insaciável. Enquanto esgrima com o mesmo ímpeto dos mosqueteiros contra Bush, Blair, Aznar, a Polônia e a Romênia sobre o Iraque, ele abre amanhã em Paris o 22º Encontro França-África. Um encontro importante. São 55 participantes, entre os quais 37 chefes de Estado. E em um momento crucial na história do mundo e da África.Esse encontro surge em plena borrasca em torno do Iraque. No braço-de-ferro que opõe a França aos Estados Unidos e seus protegidos, a ONU faz o papel, pelo menos por enquanto, de freio ou anteparo das paixões soldadescas de Washington. Ora, a África, ainda que um anão economicamente, ocupa uma posição na ONU que não pode ser negligenciada. Dois números são significativos: a África responde por menos de 5% dos negócios comerciais do planeta, mas ela representa mais de um quarto dos Estados-membros da ONU.Para Chirac, engajado em um jogo diplomático muito arriscado e incerto no Iraque, esse encontro africano é, portanto, crucial. Se a França agir com delicadeza - o que não é sua especialidade -, ele pode se confortar com seu estatuto de campeão da paz.Infelizmente, a questão africana não se apresenta muito bem. Na manhã de hoje, aterrissou na França um chefe de Estado convidado para o encontro. Ora, estranhamente, nenhum oficial francês estava lá para recebê-lo. Por quê? Porque esse avião trazia um homem indesejável: Robert Mugabe, presidente do Zimbábue.O Zimbábue - entre a África do Sul, Moçambique e Zâmbia - é a antiga colônia inglesa da Rodésia, independente desde 1980. Com seus 12 milhões de habitantes, esse país situado a 700 metros de altitude (portanto, de clima agradável) foi, sob os ingleses, um sucesso. Só que este pequeno paraíso africano caiu entre as patas de Mugabe, justamente, e Mugabe, há alguns anos, lançou-se em uma ação absurda contra os brancos (que tinham, é verdade, as melhores terras), com tamanha cólera, demagogia e incompetência que o país se arruinou em um piscar de olhos.Hoje, o Zimbábue é uma desolação. Outrora opulento, não pode mais nutrir sua própria população. Um quarto dos habitantes tem aids. Crianças famintas vagam pelas ruas. Chacinas são freqüentes. As escolas desapareceram. O povo embruteceu. As fabulosas quintas roubadas dos colonos brancos viraram pântanos.O velho arcebispo da África do Sul, monsenhor Desmond Tutu, escreveu: "Mugabe é uma caricatura de todos os preconceitos que as pessoas têm sobre os negros". Entretanto, a África do Sul se recusa a condenar Mugabe. Por outro lado, os outros países reagiram. Eles não compreendem como Chirac convidou para o encontro de Paris um indivíduo tão nauseabundo.Tony Blair, não nos admira, aproveitou a brecha. Publicamente, a Inglaterra se opôs à vinda de Mugabe a Paris. A essas críticas, os franceses responderam dizendo que a África do Sul entrou com um pedido para reintroduzir Mugabe na Commonwealth (Comunidade) britânica e que a França "não queria ser mais realista que o rei".Esses encontros africanos, dessa África recheada de mendigos, ditadores, desesperados, corruptos e tiranos, exigem acrobacias de grande porte e Chirac sofre um pouco. Por outro lado, se Mugabe é, neste momento, o chefe mais repugnante deste continente, ele tem muitos imitadores. A democracia é uma raridade na África. Podemos citar todos os ditadores ativos e que estiveram ontem em Paris. Entre os mais detestáveis, estão os do Chade, Congo, da Guiné, do Togo, etc, etc...Não esqueçamos também de que um dos Estados mais estáveis do continente, a Costa do Marfim (país francófono, capital Abidjã), está no caos há cinco meses. A França expediu soldados para proteger a paz. Ela tentou uma mediação que, por ora, não é um grande sucesso.

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