Daniel Berehulak/The New York Times
Daniel Berehulak/The New York Times

Revelação de plano nuclear antes da Guerra dos Seis Dias causa polêmica em Israel

Segundo historiador israelense, as autoridades idealizaram um plano para explodir uma carga atômica na Península do Sinai; vice-ministro contesta afirmação

O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2017 | 19h26

A revelação de que Israel teve um plano para detonar uma carga nuclear pouco antes do início da Guerra dos Seis Dias, que completa 50 anos, pôs de volta sobre a mesa o tema sensível do possível arsenal atômico do país.

Pouco antes desse conflito, entre 5 e 10 de junho de 1967, as autoridades israelenses, que temiam um ataque de seus vizinhos árabes, idealizaram um plano para explodir uma carga atômica na Península do Sinai, segundo o historiador israelense Avner Cohen.

O especialista da história nuclear de Israel revelou os detalhes do plano em um artigo publicado pelo centro de reflexão americano Wilson Center e retomado pelo jornal The New York Times.

Questionado pela AFP, o porta-voz do Ministério israelense das Relações Exteriores não quis comentar a informação.

Cohen se baseia em uma entrevista feita em 1999 e 2000 com o general reformado Yitzhak Yaacov, responsável pela unidade de investigação e desenvolvimento do Exército israelense em 1967.

Segundo Yaacov, que morreu em 2013, existia um plano chamado "Option Samson" para enviar paraquedistas ao Deserto do Sinai com o objetivo de detonar uma "carga atômica" a poucos quilômetros da base militar de Abu Ageila, um cruzamento-chave para o acesso ao centro da península.

Israel nunca deixou claro a posse de um arsenal nuclear, e os meios de comunicação locais, censurados nesta questão, têm de se apoiar na imprensa estrangeira.

"Existe um inimigo que vai te jogar no mar. Você acredita. Diz que vai lançar armas químicas [...] E o que você procura? Tudo o que possa fazer para detê-lo", explicava Yitzhak Yaacov na entrevista publicada pelo Wilson Center.

Prudente, o historiador assegura que, juntamente com inúmeros documentos, que esse plano "era mais um exercício técnico-teórico para uma hipótese improvável do que um autêntico plano militar".

"No fim concordo com a posição de [o chefe do Estado-Maior da época, Zvil] Tzur, que dizia que antes da Guerra de 1967 os dirigentes israelenses não consideravam seriamente a possibilidade de executar - nem tampouco eram capazes de fazer - uma demonstração nuclear", escreve.

A publicação dessas informações e o artigo do New York Times provocaram a polêmica em Israel.

Segundo Michael Oren, um historiador especialista na Guerra dos Seis Dias, deputado centrista e vice-ministro sem pasta no governo de direita do partido de Binyamin Netanyahu, esta teoria "não se sustenta".

Oren critica em particular o fato de que Cohen tenha como base um único depoimento, e não as "dezenas ou mesmo milhares documentos recentemente revelados sobre a Guerra dos Seis Dias em que não aparece nem meio indício" sobre a existência de uma arma nuclear.

A vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias contra os países árabes vizinhos teve implicações geopolíticas em todo o mundo e lhe permitiu aumentar consideravelmente seu território. / AFP

 

 

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