Revelações da AIEA prejudicam solução negociada com o Irã

A esperança de uma solução negociada para a polêmica nuclear com o Irã, declarada nesta quinta-feira pelo porta-voz do Departamento de Estado americano, Sean McCormack, foi prejudicada com as últimas revelações da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), confirmando que Teerã continua seu programa de enriquecimento de urânio.O Irã "introduziu urânio em gás (UF6) em 6 de junho, em uma cascata de 164 centrífugas" na usina piloto de enriquecimento de urânio em Natanz, afirma um relatório confidencial emitido nesta quinta-feira, em Viena, pela AIEA.Na terça-feira, o alto representante de Política Externa da União Européia (UE), Javier Solana, apresentou em Teerã o pacote internacional de incentivos e sanções para convencer o Irã a suspender a produção de urânio enriquecido. No mesmo dia, técnicos iranianos iniciaram uma nova etapa no processo.O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, afirmou nesta quinta-feira que as ameaças não funcionarão, mas afirmou que seu país está disposto a desfazer qualquer mal-entendido que possa existir com a comunidade internacional. Apesar disso, McComarck disse que "espera uma resposta formal dos iranianos através do senhor Solana".A interrupção do programa nuclear, especialmente delicada devido ao duplo uso - militar e civil - que pode ser dado ao urânio enriquecido, é a condição imposta ao Irã pelos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha, para voltar à mesa de negociações.Enriquecimento de urânio Para produzir urânio enriquecido em grande escala, são necessárias milhares de centrífugas, mas, com os testes que está fazendo, o Irã adquire conhecimentos essenciais para dominar totalmente o ciclo do combustível nuclear.O receio da comunidade internacional se deve ao fato de o Irã ter escondido por 18 anos parte de seu programa nuclear à AIEA e, com isso, violou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).Os EUA acusam o Irã de manter um programa nuclear para produzir uma bomba atômica, enquanto Teerã afirma que tem fins pacíficos e busca apenas a produção de energia elétrica.Suspender a produção de urânio enriquecido seria uma medida importante de criação de laços de confiança para voltar à via diplomática, segundo o Conselho de Governadores da AIEA afirmara em várias ocasiões. Mas não é apenas o programa de enriquecimento que preocupa os inspetores internacionais, liderados pelo diretor-geral da AIEA, Mohamed ElBaradei.Inspeções O Irã continua "se negando discutir a implantação de maisinspeções (em Natanz), o que seria importante para a verificação de algumas instalações de enriquecimento", acrescentam os especialistas da AIEA em seu relatório, que com apenas três páginas é o mais curto apresentado até agora.Em 5 de fevereiro, o Irã decidiu interromper a cooperaçãovoluntária com a AIEA por causa do Protocolo Adicional do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), que permite inspeções sem aviso prévio em qualquer instalação nuclear.O relatório emitido hoje confirma que Teerã mantém esta decisão, tomada após o envio do "dossiê iraniano" ao Conselho de Segurança da ONU, em Nova York. Além disso, os especialistas da agência nuclear da ONU afirmam ter encontrado em equipamentos do Centro de Pesquisa Física, perto de Teerã, "pequenas quantidades de urânio altamente enriquecido", cuja origem e natureza são desconhecidas, por enquanto.Para esclarecer esse assunto, os inspetores pediram um encontro com o diretor da Universidade Técnica de Teerã, responsável também pelo Centro de Pesquisa Física, o que o Irã rejeitou até o momento.Os 35 países-membros do Conselho de Governadores da AIEAanalisarão em reunião, a partir da próxima segunda-feira, o relatório emitido nesta quinta-feira.Não deve haver nenhum tipo de resolução ou decisão, já quelegalmente o assunto está no Conselho de Segurança da ONU, órgão máximo das Nações Unidas, que tem poder para ditar sanções.

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