Carolyn Kaster/Arquivo/AP
Carolyn Kaster/Arquivo/AP

Revelada identidade de fonte que expôs programa de grampos de Obama

Edward Snowden já foi da CIA e trabalhou por quatro anos na Agência Nacional de Inteligência

DENISE CHRISPIM MARIN - CORRESPONDENTE EM WASHINGTON,

09 de junho de 2013 | 15h52

A fonte que revelou ao jornal britânico The Guardian o programa secreto de grampos telefônicos e vigilância na internet do governo americano divulgou sua identidade ontem. Pouco depois de a Agência Nacional de Segurança (NSA) pedir a abertura de investigação criminal do caso, Edward Snowden, de 29 anos, contou ao diário londrino seus motivos para revelar o projeto secreto de espionagem ao mundo.

A fonte trabalhava como analista de dados da Booz Allen Hamilton, uma empresa terceirizada contratada por um escritório da NSA no Havaí. Antes disso, foi agente da CIA. Ele decidiu divulgar sua identidade e disse ter consciência de que será punido. De acordo como Guardian, Snowden deixou os Estados Unidos há três semanas e foi para Hong Kong, onde está desde então.

"Minha única motivação é informar o público, assim como dizer o que é feito em nome dele e o que é feito contra ele", afirmou Snowden ao jornal. "Eu não tenho intenção de esconder quem eu sou porque não fiz nada errado. Eu não me vejo como um herói porque o que estou fazendo é de meu próprio interesse: não quero viver em um mundo onde não há privacidade nem espaço para a exploração intelectual e a criatividade. O que eles (o governo) estão fazendo é uma ameaça existencial à democracia."

Mesmo sem ter concluído o segundo grau, Snowden seguiu carreira como sofisticado técnico de computação, depois dispensado das Forças Especiais do Exército com as duas pernas quebradas. Desde meados dos anos 2000, atuou como segurança em uma unidade da NSA na Universidade de Maryland. Depois, começou a trabalhar na CIA, que o enviou como seu agente para um posto diplomático em Genebra, na Suíça. Ali, começou a ter acesso a documentos secretos do governo.

De volta ao NSA, como funcionário de empresas privadas terceirizadas, trabalhou em uma base militar americana no Japão e, finalmente, no Havaí. Entre 2009 e maio de 2013, teria perdido as esperanças de ver o governo de Barack Obama mudar os rumos da política de vigilância em vigor desde o governo de George W. Bush. "Eu vi que Obama estava avançado nas mesmas políticas que eu achava que seriam refreadas", disse .

Segundo Snowden, a NSA tem o objetivo de estar ciente "de toda conversa e toda forma de comportamento no mundo". O programa secreto usado pela agência desde 2007 é capaz de processar dados colhidos dos servidores centrais das maiores companhias internet dos EUA – Microsoft, Apple, Google, Facebook, Yahoo, AOL, entre outras – e também de registros de chamadas telefônicas de pelo menos uma das operadoras do país, a Verizon.

Snowden afirmou ao jornal britânico estar ciente de que o governo americano vai "demonizá-lo" e processá-lo com base na Lei de Espionagem.

Desde que as notícias por ele vazadas começaram a ser publicadas, assiste compulsivamente aos telejornais e acompanha os sites de notícias na internet. Cobre a cabeça e o laptop com um capuz vermelho para digitar a senha para abrir seu computador, para evitar câmeras, e tapa o vão entre a porta e o chão com travesseiros, para evitar escutas. Snowden saiu do quarto apenas três vezes.

Ele deixara o Havaí sem dar explicação à namorada, com quem dividia uma casa confortável. Ao chefe, no NSA, disse que precisaria de algumas semanas de folga para tratar epilepsia. De acordo com o Guardian, seu salário era de US$ 200 mil ao ano. Embora dependa de difícil negociação com o governo chinês, os EUA podem conseguir sua extradição para julgá-lo em casa. O governo chinês também pode convencê-lo a colaborar.

O diretor nacional de Inteligência, James Clapper, pediu ontem ao Departamento de Justiça a abertura de investigação criminal contra o responsável pelos vazamentos. Ele não mencionou, em programa da rede de televisão NBC, o nome de Snowden, que já estava sendo procurado no Havaí. Apenas referiu-se ao autor como "alguém que decidiu violar a confiança de seu país".

A revelação do programa secreto de vigilância ao público, segundo Clapper, causou enorme dano. O programa, insistiu, é legal e fora aprovado pelo Congresso e pelo Judiciário. "A vigilância é uma ferramenta chave para continuarmos a garantir a segurança da Nação. Todos nós nos sentimos profundamente ofendidos por isso (a revelação pública do programa)", disse.

Patriota. A revelação do acesso da NSA e de outras agências americanas telefonemas, e-mails e registros na internet despertou nos EUA a noção de que a Lei Patriota, de 2001, deu margem a ações mais vastas contra a privacidade do cidadão do que as inicialmente imaginadas. Ontem, o democrata Mark Udall, membro do Comitê de Inteligência do Senado, defendeu a reabertura dessa lei para a introdução de novos limites.

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