Reverso da fortuna e a vez da América Latina

A capa do jornal argentino Página 12 disse tudo. No dia 6, o diário de tendência governista estampou o desenho de um grande mapa do Hemisfério Ocidental, posto de cabeça para baixo. Ao norte, estava a América do Sul. Lá embaixo, apontando para o fim do mundo, jaziam os EUA. A manchete: "Ideias do Sul".

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

Seja bem-vindo à nova ordem mundial, onde os valores, crises e até as piadas estão invertidas. Condicionados a puxões de orelhas de autoridades dos países abastados, os governantes latinos agora celebram a prosperidade e estabilidade inusitadas.

Há motivos para ostentação. A América Latina, quando não foi estopim de crises internacionais, apanhou de todas elas nas últimas três décadas e teve de se reinventar. Estancou a inflação, privatizou e reestruturou os bancos. Com a dívida pública sob controle, os países latinos parecem paladinos de parcimônia frente a americanos e europeus. As projeções de crescimento, mesmo com os novos baques internacionais, apontam para razoáveis 3,5% a 4,7% neste ano, o dobro dos EUA.

O tombo nos países ricos oxigena a campanha eleitoral na Argentina. Enquanto o mundo "continua em queda livre, a Argentina está de pé, com o melhor salário mínimo da região e pagando sua dívida", alfinetou a presidente Cristina Kirchner, favorita nas eleições de outubro.

Até quando? E o que acontecerá se a recuperação dos EUA fraquejar? E quando a China desacelerar? Poucos duvidam que o modelo chinês, atrelado à exportação, não se sustenta nesse ritmo e provoca inflação, desigualdade, protestos e bolhas imobiliária e bancária. A China compra 13% das exportações brasileiras, 7% das argentinas e quase um quarto dos bens chilenos. Será que os empresários latinos, que tanto se queixaram do comércio predatório chinês, começarão a rezar pela saúde do dragão?

Parte dos analistas acha que a América Latina está bem e sobreviverá num mundo de crescimento mais baixo. Segundo Jim O"Neill, economista-chefe de Goldman Sachs, um freio modesto na demanda chinesa até que faria bem às demais emergentes. Afinal, os latinos faturam com o boom de matérias-primas, mas pagam caro com a enxurrada de dólares que inflaciona salários e exportações.

Se a China esfriar e os EUA mergulharem em recessão, a celebrada resistência latina pode derreter. O momento é delicado e não falta quem clame aos governantes para moderar os gastos públicos e blindar as economias. A receita é simples: reduzir impostos, acabar com burocracias e investir em infraestrutura.

É o velho discurso da prudência e bom senso fiscal, mas o refrão comove poucos em tempos de bonança, muito menos em época eleitoral. Que o diga Cristina Kirchner, que mesmo com a inflação argentina beirando os 20%, afrouxou a política monetária, aumentou os pensionistas e presenteou setores preferidos com generosos subsídios. E se a economia global desabar? Não será com ela, avisou Cristina do alto do palanque, ao delírio da multidão. "Quando foi que o sonho americano virou um pesadelo?"

Que o sonho latino não acabe assim.

É COLUNISTA DO "ESTADO",

CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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