Francois Mori/AP
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Reviravoltas marcam combates na Líbia

Tropas anti-Kadafi avançam sobre Sirte e Bani Walid no início do dia, para logo recuar

, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2011 | 00h00

TRÍPOLI

Num conflito que já teve tantos exemplos de inépcia entre os combatentes, a disputa pelas cidades de Bani Walid e Sirte se destaca. Os repetidos ataques e retiradas das forças anti-Kadafi ocorrem com a maior frequência vista desde a batalha por Brega, no litoral, ou a luta por Ajdabiya. Os revolucionários começam o dia com demonstrações de bravura e coragem, mas costumam terminá-lo numa retirada desordenada e às vezes humilhante.

 

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Ontem, tropas leais ao ditador Muamar Kadafi voltaram a lançar ataques nos arredores de Bani Walid, mantendo posições estratégicas no norte da cidade, a 140 quilômetros de Trípoli. Eles usaram atiradores e lançadores de granadas para afastar os revolucionários, que tinham tentado tomar a cidade na sexta-feira e foram forçados a bater em retirada. Em outro reduto controlado pelas forças pró-Kadafi, Sirte, cidade natal do ditador, os combates avançaram em várias frentes apenas para recuar em seguida.

 
  Trípoli caiu há quase um mês, e o remanescente das forças leais ao ditador fugiu para essas duas cidades, além de Sabha e Hun, oásis no deserto, ao sul. Bani Walid e Sirte vêm sendo mantidas sob sítio pelas forças anti-Kadafi - moradores contatados por telefone dizem estar acabando a comida, os remédios, o combustível e a água.

Os revolucionários são mais numerosos do que os soldados leais a Kadafi e têm recebido picapes lotadas de armas pesadas e tanques de guerra russos T-72. As forças remanescentes do ditador têm lançadores de foguetes Grad e RPG-7, mas sempre que levam a campo veículos e armamento pesado, a Otan os destroem com ataques aéreos.

O problema enfrentado pelos revolucionários agora no poder é o cansaço. Após sete meses de levante e combates quase diários contra as forças de Muamar Kadafi, eles estão exaustos. Com a vida voltando ao normal na maior parte da Líbia, os combatentes também estão ansiosos para aproveitar os frutos de sua nova liberdade - e não se mostram mais tão determinados a morrer para acabar com um regime que, ao menos no quadro mais amplo, já virou passado.

A isso se soma a sua indisciplina e inexperiência militar. Nas duas últimas semanas, ao menos 10 revolucionários foram mortos por causa de acidentes envolvendo armas de fogo, frequentemente atingidos por suas próprias armas, de acordo com Ali al-Kerdasi, porta-voz do Hospital Central de Trípoli, principal centro médico do país.

Perto de Bani Walid, dois combatentes exaustos, Hamza Bouzeidi e Mohammed al-Naama, admitiram ter cometido erros. "Estávamos desorganizados", disse Bouzeidi, descrevendo os ataques protagonizados pelos combatentes pró-Kadafi. Primeiro foram os atiradores de elite, depois os foguetes e, finalmente, uma saraivada de granadas que matou um dos membros do grupo. Naama, cansado, tirou o capacete e descreveu como tinha sido o dia. "Avanços e recuos, avanços e recuos", disse.

A frustração levou a acaloradas discussões depois da retirada - um combatente chegou a apontar seu lança-granadas para um colega. "Sirte estará completamente em nossas mãos", insiste Anis Sharif, porta-voz do Conselho Militar de Trípoli. "E não demorará muito para que o mesmo ocorra em Bani Walid." Talvez isto se comprove, mas previsões como essa perderam muito do seu valor por causa da repetição. / NYT

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