AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

Revisão do Nafta deve preocupar

Trump pretende colocar os EUA em primeiro lugar, mas está ajudando a China a garantir a segunda colocação

Nelson W. Cunningham*, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2017 | 05h00

A renegociação do Nafta, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, prometida pelo presidente Donald Trump, começará hoje. Os EUA jamais renegociaram um acordo comercial antes e esse é o maior e o mais importante até hoje. Os americanos têm razões para se preocupar, e muito, com essa revisão. O histórico de Trump na área de comércio e as prioridades do governo criam um cenário inóspito para as conversações.

Até agora, foram seis meses de ações, respaldadas por décadas de palavras. O veredicto é o seguinte: Trump é o presidente mais heterodoxo e nacionalista da era moderna. Os termos usados por ele ao abordar a questão do comércio não poderiam ser mais duros: “O Nafta é o pior acordo comercial na história do mundo”, tão ruim quanto o TPP - Parceria Transpacífico, “outro desastre, incentivado por interesses especiais que desejam espoliar nosso país”, disse. 

Suas recentes declarações não são melhores. O comércio e outro assunto que é a marca do governo, a imigração, são temas fixos da sua visão do mundo. São duas barras de aço nas areias movediças das palavras e políticas de Trump, visíveis há décadas e muito conectadas com sua base. Em 1987, ele pagou quase US$ 100 mil por anúncio de página inteira em jornais e as palavras que usou foram as mesmas que utiliza hoje.

Desde sua posse, essas palavras se transformaram em ações. Na primeira semana de governo, ele se retirou da Parceria Transpacífico e anunciou a intenção de renegociar o Nafta. Em abril, afirmou publicamente, em tom de gracejo, que o país sairia completamente do acordo. E assinou oito ordens executivas para “proteger” os americanos contra o comércio exterior.

Agora, temos o longamente esperado “Sumário dos Objetivos da Renegociação do Nafta” do governo. Grande parte do documento é escrito em termos de economia técnicos: ter como inspiração negociações recentes, incluindo a do TPP (ironia das ironias) e “modernização” de um acordo de 23 anos. Mas o que torna os objetivos do Nafta e as próximas conversações tão excepcionais, até mesmo radicais, é sua principal finalidade:

“Melhorar a balança comercial dos EUA e reduzir o déficit comercial com os países do Nafta.” Isso é novo e inusitado. Como explica o release que acompanha a notícia, “pela primeira vez, o Representante Comercial dos EUA incluiu a redução do déficit como objetivo específico das negociações no âmbito do Nafta”.

O foco de Trump em déficits comerciais bilaterais intriga os economistas, cuja avaliação é de que, por si sós, eles têm pouca importância. Eles seriam apenas reflexos de questões mais graves, como taxas de consumo e de poupança. Entretanto, a redução do déficit tem sido a prioridade do presidente desde 1987, e hoje é oficialmente seu objetivo número 1 no caso do Nafta, e sem dúvida em todas as futuras negociações comerciais.

E qual será o impacto disso nas negociações? O déficit comercial com o México é de cerca de US$ 60 bilhões. Embora se assegure que os EUA tentarão reduzir esse déficit expandindo suas exportações, a economia do México é comparativamente pequena e o poder de compra das empresas e dos cidadãos mexicanos é limitado. O México poderá se permitir comprar mais US$ 60 bilhões de produtos americanos, em vez produzi-los internamente? Voluntariamente? Esse valor equivale a 6% do seu PIB. É duvidoso. 

Há apenas três maneiras seguras de reduzir um déficit comercial tão grande quanto esse: tarifas, cotas ou comércio administrado, como as restrições “voluntárias” à entrada de veículos e semicondutores japoneses adotadas na década de 80. Esses instrumentos contundentes são execrados pelas economias muito menores do Canadá e México e na verdade por todos os parceiros comerciais dos EUA. Acrescentemos o problema do muro na fronteira e a perspectiva é ainda pior.

Se essas conversações constituem uma “arena” onde os países disputam vantagem, como afirmam os assessores de Trump, referindo-se à visão “lúcida” do presidente sobre qual é hoje oficialmente o objetivo número 1 da renegociação, então, não devemos esperar uma negociação normal, nem descartar um colapso.

Se o governo surpreender e as conversações caminharem bem, teremos um Nafta modernizado, adequado ao século 21. Mas se não avançarem, as relações dos EUA com vizinhos mais próximos seriam destroçadas, as cadeias de suprimento através do continente seriam rompidas e as fronteiras ao norte e ao sul ficariam complicadas. A América do Norte entraria em uma nova era, separada por barreiras comerciais, tarifas e suspeitas mútuas.

Quem ganhará será a China, que não precisará competir com uma manufatura norte-americana unida, eficiente e com mercado interno gigantesco. Assim, à medida que Trump retira os EUA do TPP e do acordo sobre o clima de Paris, o beneficiário global é o país que Trump tanto atacou durante sua campanha. O desejo do presidente é colocar os EUA em primeiro lugar. Em vez disso, está ajudando a China a garantir a segunda colocação. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PRESIDENTE E COFUNDADOR DA MCLARTY ASSOCIATES, EMPRESA DE ASSESSORIA ESTRATÉGICA INTERNACIONAL COM SEDE EM WASHINGTON. FOI ASSESSOR COMERCIAL E DE POLÍTICA EXTERNA DA CADA BRANCA NO GOVERNO CLINTON.

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