Revista traz suposto contato das Farc com PT e governo

A revista colombiana Cambio divulgou ontem documentos que teriam sido entregues pelo presidente colombiano, Álvaro Uribe, ao seu colega brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e supostamente provariam os contatos de integrantes do governo brasileiro e do Partido dos Trabalhadores (PT) com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Os documentos seriam transcrições de 85 e-mails do computador do líder guerrilheiro Raúl Reyes, morto em março num ataque do Exército colombiano contra seu acampamento no Equador, trocados entre 1999 e fevereiro de 2008 com o líder da guerrilha, Manuel Marulanda, o chefe militar, Mono Jojoy; Oliverio Medina (representante das Farc no Brasil) e dois homens identificados como Hermes e José Luis. A reportagem usa tons duros em sua denúncia (como "vínculos que chegaram a níveis escandalosos"), apesar de reconhecer que nenhum dos funcionários do governo brasileiro citados passou e-mails diretamente para membros das Farc. Também contém imprecisões - José Dirceu, por exemplo, é identificado como ministro e não ex-ministro da Casa Civil. Segundo a publicação, os documentos mostram vínculos das Farc com "cinco ministros, um procurador-geral, um assessor especial da Presidência, um vice-ministro, cinco deputados, um vereador e um juiz". Em entrevista publicada pelo Estado no domingo, o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, já havia revelado que, no calor da visita de Lula à Colômbia, nos dias 19 e 20, foram entregues ao governo brasileiro informações sobre as Farc no Brasil. "Há uma série de informações de conexões (das Farc) que entregamos ao governo brasileiro para que ele possa reagir como considerar mais apropriado", disse Santos. Na segunda-feira, o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, negou que qualquer relatório sobre as Farc tivesse sido repassado a Lula durante a viagem. Ele admitiu que, antes dela, algumas informações foram trocadas, mas todas "irrelevantes". A Cambio, porém, não só reafirmou a existência do "dossiê brasileiro" como publicou detalhes sobre ele. Ontem, o governo brasileiro reagiu com cautela às novas revelações.E-mailsEm um e-mail de 2006, Medina diz a Reyes que pode receber a visita de um assessor de Lula: "É possível que me visite um assessor especial de Lula chamado Silvino Heck que, junto com Gilberto Carvalho (chefe de gabinete), foi outro que nos ajudou bastante." Em outra mensagem, de 2005, José Luis menciona o nome de Dirceu: "Um jovem que se apresentou como Breno Altman (militante do PT) me disse que vinha de parte do ministro José Dirceu e que, por motivos de segurança, eles tinham concordado que as relações não deviam passar pela Secretaria de Relações Internacionais, mas sim pelo ministro, com a representação de Breno." Altman não foi localizado para dar sua versão.O deputado distrital Paulo Tadeu (PT) e o sindicato dos servidores da Companhia Energética de Brasília (CEB) aparecem em uma lista das pessoas e entidades que teriam contribuído com dinheiro para a guerrilha: US$ 833,33 e US$ 666,66, respectivamente. Procurados pela reportagem, os sindicatos não se manifestaram. Tadeu, que foi diretor do sindicato dos eletricitários, está de férias e não foi localizado.Vereador em Guarulhos, Edson Albertão (PSOL) é mencionado numa mensagem como emissário das Farc para o contato com o chanceler Celso Amorim. "Por intermédio do líder do PT Plínio de Arruda Sampaio, chegamos ao Celso Amorim. Plínio mandou dizer ao Albertão que o ministro está disposto a nos receber, assim que tiver espaço em sua agenda", diz o e-mail de 22 de fevereiro de 2004. "Nunca neguei minhas ligações com as Farc", disse Albertão ao Estado. O ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, atualmente no PSOL, disse não saber se a reunião entre Medina e o ministro ocorreu. Arruda diz ainda desconhecer ligações do PT com as Farc.Venezuela e EquadorHá diferença no modo como a Colômbia denunciou, em março, as ligações das Farc com a Venezuela e o Equador usando as informações encontradas no mesmo PC de Reyes. Na ocasião, o próprio Uribe foi à televisão para criticar, num discurso inflamado, as conexões dos vizinhos com a guerrilha. Dessa vez, em nome das boas relações com o Brasil, preferiu pedir providências a Lula numa reunião fechada. Bogotá diz que "respeita a autonomia" do Brasil na análise das informações do computador de Reyes. "É o Brasil que deve avançar em atribuir as eventuais responsabilidades", afirmou o chanceler Jaime Bermúdez. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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