Revolta árabe aproxima EUA e Turquia

Uma das marcas do governo do premiê Recep Tayyp Erdogan na Turquia é o investimento nas relações com o Oriente Médio e uma política externa independente dos EUA. Um exemplo disso é o acordo mediado junto com o Brasil no ano passado sobre o programa nuclear iraniano, que irritou Washington e distanciou turcos e americanos. A primavera árabe, no entanto, reverteu esse quadro. O complicado xadrez diplomático provocado pelos protestos na região, dizem analistas, reaproximou os dois países.

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Essa proximidade se deve principalmente à crise na Síria. O país é um dos melhores exemplos da política de "problema zero" com os vizinhos de Erdogan e seu chanceler, Ahmet Davotuglu. Ancara e Damasco - que quase foram à guerra nos anos 90 - hoje têm fortes laços comerciais e culturais. Nos últimos cinco anos, as exportações turcas para a Síria cresceram 203%, segundo dados da ONU. Novelas turcas dubladas em árabe sírio viraram febre na região e os vistos diplomáticos entre ambos foram liberados para fomentar o turismo.

Obama e Erdogan tem conversado com frequência sobre a Síria. Publicamente, os dois líderes tem pedido o fim da violência e o começo de uma transição rumo à democracia.

"Com exceção feita aos iranianos, a Turquia é o país com mais influência sobre Assad", diz o professor de Relações Internacionais da Universidade de Lehigh, Henri Barkey. "As relações entre EUA e Turquia estavam num ponto baixo por causa do acordo nuclear, mas Obama conseguiu engajar Erdogan e hoje os dois estão próximos"

Para a diretora do centro de estudos turcos do Middle East Institute, Gonul Tol, com a queda de Hosni Mubarak no Egito, os EUA saíram em busca de novos parceiros na região. "A Turquia se tornou muito importante para os EUA", afirma "É um dos poucos países do Oriente Médio que tem influência na região e ainda conversa com os EUA."

Ao contrário da Líbia, onde os países ocidentais obtiveram a autorização da ONU para impor sanções ao regime de Kadafi e para uma ação militar contra o ditador, no caso sírio o consenso está mais distante. No Conselho de Segurança, países emergentes como China, Rússia, Brasil, Índia e África do Sul têm resistido a apoiar punições contra o regime de Assad, como querem EUA, Grã-Bretanha e França.

Desde o início dos protestos no país, que começaram em março na cidade de Deraa, a oposição síria diz que mais 2,2 mil pessoas morreram, vítimas da violência de tropas leais a Assad. Cerca de 10 mil opositores foram presos pelo regime.

Mudança de tom

ABDULLAH GUL

PRESIDENTE DA TURQUIA

"Todos devem saber que estamos do lado do povo sírio. Não há lugar no mundo de hoje para regimes autoritários, fechados e de partido único"

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