Revolta com eleições faz Haiti decretar feriado

Pressão da população e de 12 dos 18 candidatos, que pedem anulação da votação do domingo, obriga Préval a suspender atividades para evitar caos

Gustavo Chacra ENVIADO ESPECIAL PORTO PRÍNCIPE, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

Temendo o aumento da violência e instabilidade, o presidente do Haiti, René Préval, acusado de irregularidades na condução do processo eleitoral, decretou feriado ontem em todo país. As ruas de Porto Príncipe ficaram calmas e a Minustah (Força de Paz da ONU para o Haiti), ainda em estado de alerta, não registrou nenhum incidente grave.

Mas o feriado não impediu que a maior parte dos habitantes continuasse revoltada por não ter conseguido votar. "Meu nome não estava em nenhum lugar e eu tenho o título de eleitor", disse Jerom Joseph, um vendedor no centro da capital. "Todos sabem que não interessa quem o povo escolher. Préval fará qualquer coisa para (Jude) Celistin ganhar", disse, referindo-se ao candidato governista.

Thereza Petidoh, moradora da região do mercado de Salines, uma das mais miseráveis de Porto Príncipe, também não conseguiu votar e ficou irritada com o processo eleitoral. "Eu fui até a escola, mas tinha muita confusão. Ninguém conseguia entrar. Esta eleição deveria ser anulada. Queria votar em (Mirlande) Manigat, que é mulher, e não me deixaram", afirmou haitiana, citando a mais popular candidata da oposição. Thereza é analfabeta, mas teria conseguido votar segundo os planos do governo, pois as fotos dos candidatos aparecem nas cédulas.

Os principais opositores exigem o cancelamento das eleições, segundo comunicado conjunto divulgado ainda no domingo. Eles afirmam que eleitores não encontravam os nomes nas listas ou foram impedidos de votar por serem contra Celistin. Entre os signatários estão 12 dos 18 candidatos, incluindo Manigat e Michel Martelly, que são favoritos na disputa contra a opção governista para realizar, em janeiro, o segundo turno se nenhum deles alcançar 50% dos votos.

Um dos mais radicais ontem contra o governo era o cantor de hip-hop haitiano Wyclef Jean, que vive nos EUA. Depois de ter sua candidatura impugnada, decidiu apoiar o também músico Martelly. "Exijo que algum órgão internacional sem nenhuma ligação com o governo haitiano verifique se todos os votos foram contados", disse. Caso isso não seja feito, "a violência subirá a níveis nunca vistos".

Observadores independentes também criticaram a votação. "A comunidade internacional deveria rejeitar essas eleições e apoiar as instituições democráticas do Haiti. Caso contrário, os haitianos terão um governo que será visto internamente como ilegítimo", disse Mark Wesbrot, diretor do Centro para Pesquisa Econômica e Política de Washington.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.