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Revolta contra a banalização

O que é novo é que a população francesa não suporta mais a insegurança

Gilles Lapouge , O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2016 | 05h00

Na cidade das flores, um caminhão investe contra a multidão. Pedaços de crianças, idosos. Inferno. A França está indignada. O primeiro-ministro Manuel Valls presta homenagem às vítimas do ato infame em Nice. Minuto de silêncio. Momento solene. Mas o premiê é recebido com gritos de raiva. Os enlutados de Nice o acusam de não ter impedido o morticínio.

Fato inédito. Até agora os atentados produziram efeito contrário. Na dor e no horror, os franceses se uniram, esqueceram por algum tempo as querelas internas e se solidarizaram com o poder instituído. 

Foi assim em janeiro de 2015, quando terroristas mataram jornalistas do Charlie Hebdo. Dois milhões de pessoas na rua se reuniram em torno de François Hollande. O presidente, tão impopular, de repente se transformou no “protetor da nação”.

O mesmo se verificou em novembro de 2015. União nacional. Lágrimas em comum. Um país unido diante do perigo. A França destroçada encontrou sua unidade. Ante a morte e o mal, o país se envergonhava de suas miseráveis querelas internas. Todos se amavam, enfim, e amavam seu presidente.

Nada disso observamos em Nice. Mal enterrados os mortos e os inimigos dos socialistas foram à luta, unidos. Fecharam o cerco contra Hollande e Valls. O tema era claro: Hollande jamais avaliou o perigo jihadista. Paralisado diante da ideia de violar os princípios “humanistas” do socialismo, ele se recusou a compreender que a França está em guerra e é preciso enfrentar os terroristas não com reprimendas e reprovação, mas com medidas ferozes. Em resumo, Nice significou a inércia dos socialistas.

Essa é uma tese radical. Mesmo contendo alguma verdade, tem muita coisa de falso. O que leva a uma pergunta real: por que até agora os atentados produziram uma “união sagrada” e desta vez provocou o efeito contrário? 

Poderíamos invocar a posição de Hollande. As eleições presidenciais serão realizadas em um ano. Seus rivais o atacam a qualquer pretexto. Além do que, ele está desgastado. Fechado em suas fraquezas e arrogância. Ferido. 

Mas não é tudo. O que é novo é que a população francesa não suporta mais a insegurança. Em primeiro lugar por causa da regularidade dos atentados que se concentram sobre a França. É a repetição, a cada seis meses, desses horrores que colocam a massa em pânico.

E, sobretudo, o dia sangrento de Nice anuncia que o terror avança com novos trunfos. Até agora as ações do Estado Islâmico eram ambiciosas, complicadas, ruinosas, exigiam uma longa preparação, uma equipe importante, chefes, alguém que “dava a ordem” ou seja os dirigentes do EI. Nada disto ocorreu em Nice. Estamos na presença de um crime simples, barato, rudimentar, que não exige preparação, dinheiro ou intervenção de especialistas. É o terrorismo nota zero. De qualidade inferior. Um terrorismo de pobre ou de imbecis.

A população francesa reage muito pior aos massacres de Nice em primeiro lugar porque o perigo eventual se multiplica. Se basta alugar um caminhão para matar quase 90 pessoas, vamos ver a reprodução de ações com as quais o EI nem precisa se ocupar, contentando-se apenas em consagrar o ato depois do drama e tirar proveito.

Esse terrorismo barato tem um outro aspecto angustiante. Pode ser perpetrado por qualquer um, em qualquer lugar, por um vizinho, um primo, um velho empregado. Temos quase a impressão que pode ser levado a cabo por “ninguém”, ocorrer espontaneamente, como certas catástrofes naturais, como tudo que escapa ao controle do homem.

Consequência: nos vimos lançados numa espécie de “romance de terror”, num pequeno apocalipse. Assim, nos voltamos para o chefe, o presidente da República. E indagamos por que ele não conseguiu “nomear o inominável”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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