Revolta contra política tradicional abre porta a um nome populista no Chile

Revolta contra política tradicional abre porta a um nome populista no Chile

Chilenos mantêm alternância equilibrada entre direita e esquerda, pautada em políticas de Estado, desde saída de Pinochet

Rodrigo Cavalheiro, ENVIADO ESPECIAL A SANTIAGO

03 de novembro de 2019 | 05h00

Quando estudantes saltaram por três dias as catracas do metrô de Santiago, rebelando-se contra um aumento 30 pesos (o equivalente a R$ 0,16) e chamando outros a “evadir” o sistema, não foram levados a sério. Como o reajuste valeria só para o horário de pico, após as 7 horas da manhã, o ministro da Economia, Juan André Fontaine, sugeriu: “Quem madrugar será beneficiado por uma tarifa mais baixa.” 

Aquele era o 21.º aumento em 12 anos e a sugestão levou o próprio Fontaine mais cedo para casa. Ele perdeu o emprego na reforma ministerial feita por Sebastián Piñera em resposta a manifestações que têm no sistema político um alvo central.

Tanto que uma das exigências que o presidente tenta colocar em prática é reduzir os ganhos deputados e senadores, por meio do corte de diárias. Os legisladores ganham 9 milhões de pesos brutos (R$ 48 mil), enquanto o salário mínimo fica em 350 mil (R$ 1,8 mil).

O uso das Forças Armadas, ainda associadas à ditadura, durante os 10 dias de estado de emergência, acirrou essa revolta contra as instituições. Tais circunstâncias levaram analistas e políticos a questionar se o Chile, caracterizado por sua alternância equilibrada entre esquerda e direita, pautada em políticas de Estado, poderia eleger um populista.

“Há claramente um sentimento contra as elites no Chile e hoje o populismo tem essa carga antielite. Mas nunca tivemos lideranças carismáticas. Todos nossos grandes presidentes estiveram em linhas constitucionais. Tivemos muita entrada de imigrantes recentemente, mas nem isso estimulou a ascensão de um xenófobo”, afirma o cientista político Raul Sohr.

Os números da última eleição – o voto é opcional – reforçam essa desesperança. Houve participação de 46,7% no primeiro turno em 2017. Destes, 36% votaram em Piñera. No segundo turno, Piñera venceu o esquerdista Alejandro Guillier ao obter 54% dos votos válidos. Mas a participação também foi baixa: 49%.

A terceira colocada naquela eleição, Beatriz Sánchez (20% no primeiro turno), à esquerda de Guillier, não se atreve a descartar a repetição do fenômeno populista no Chile. “Ninguém pode prever o que ocorrerá depois deste movimento. A direita tem uma tática antiga que é despolitizar a sociedade. Falar de todos os políticos como o problema”, disse ao Estado.

Duas semanas após as depredações feitas por anarquistas em mais de 40 estações no dia 18, após os três dias em que estudantes chamaram a “evadir” o sistema de metrô, essa palavra tornou-se um símbolo das manifestações. Até por dupla acepção. Depois de Piñera criticar os estudantes que “evadiam” o metrô, alguns responderam que ele já havia sido punido por “evasão” de impostos.

 

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