Revolta explode na segunda maior cidade da Síria

Situação interna continua instável; postos na fronteira com Iraque e Turquia continuam sendo disputados por governo e rebeldes

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / BEIRUTE, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2012 | 03h03

As forças de segurança leais ao ditador da Síria, Bashar Assad, lançaram ontem uma contraofensiva para expulsar rebeldes de bairros de Damasco e tentar recuperar o controle da capital. O bairro de Midan foi tomado com a ajuda de carros blindados em combates à noite. Ao norte, no entanto, um novo levante explodiu em Alepo, segundo maior cidade do país.

O levante em Midan foi sufocado após uma madrugada de combates próximos ao centro de Damasco. Usando tanques de guerra e armas pesadas, os soldados obrigaram os rebeldes a se retirarem, sob pena de serem massacrados.

Jornalistas autorizados pelo regime a estar em Damasco foram levados ao bairro para conferir a retomada da área. Eles encontraram imóveis destruídos por explosões de obuses e corpos ainda abandonados nas ruas.

Na TV estatal, o regime comemorou a vitória na batalha por Midan, que freia o avanço rebelde. "Nossas valorosas Forças Armadas limparam totalmente a região de Midan, em Damasco, dos resíduos de terroristas mercenários e restabeleceram a segurança."

À agência Reuters, Abou Omar, um dos comandantes rebeldes na região, classificou a estratégia dos ativistas como "um recuo tático". Ofensivas também foram realizadas nos bairros de Jobar e de Kafar Soussé, de acordo com um levantamento do Observatório Sírio de Direitos Humanos, ONG de oposição com sede em Londres.

Em contrapartida à ofensiva de Assad, os rebeldes partiram para os combates em Alepo pela primeira vez em 16 meses de revolta. A cidade é um dos centros econômicos do país, situada no norte da Síria, e registrou sempre protestos pacíficos ao longo dos últimos meses. Agora, os ativistas passaram à luta armada, seguindo o mesmo caminho dos rebeldes em Damasco.

Fronteiras. Outra boa notícia para os rebeldes sírios foi a morte do chefe do Departamento de Segurança Nacional da Síria, Hisham Ikhtiyar, um dos feridos no atentado que atingiu o núcleo do governo de Assad, na quarta-feira. Na explosão, morreram também o ministro da Defesa, Daoud Rajha, e seu vice, Assef Shawkat, cunhado do presidente.

Em toda a Síria, mais de 300 pessoas morreram na quinta-feira, no dia mais violento desde o início da revolta, em 2011. Entre eles estavam 139 civis, 98 soldados e 65 rebeldes. Destes, 70 foram mortos em Damasco, segundo balanço de grupos de oposição. Ao todo, segundo estimativas de grupos de oposição, mais de 17 mil pessoas já morreram em confrontos desde o início do levante.

Outros enfrentamentos ontem foram registrados em pontos de fronteira com o Iraque e a Turquia. No mais importante deles, em Bab al-Hawa, junto à província turca de Hatay, tropas do regime lançaram um contra-ataque para recuperar o posto fronteiriço. No entanto, até ontem à noite, a situação era indefinida.

Em Masnaa, na fronteira com o Líbano, onde o Estado passou o dia de ontem, o domínio permanecia nas mãos das Forças Armadas. Esse é o ponto mais usado pelos sírios que decidem abandonar o país.

Desmentido. Por Masnaa passam famílias inteiras, a maior parte de classe média, fugindo dos conflitos em Damasco. Nem todos, contudo, são a favor da rebelião contra Assad. "O Ocidente está armando islamistas sunitas que querem se vingar de cristãos, de alauitas e de drusos", afirmou Ahmed Bouzman, comerciante que levava a família para Beirute.

Em meio à instabilidade, o embaixador da Rússia em Paris, Alexandre Orlov, insinuou ontem à Radio France International que Assad estaria próximo de deixar o poder. "Assad nomeou um representante para as negociações com a oposição para realizar a transição. Ele aceita deixar o cargo, mas de uma maneira civilizada", afirmou Orlov. As informações, entretanto, foram desmentidas horas depois pela TV estatal síria.

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