Gleb Garanich/Reuters
Gleb Garanich/Reuters

Revolta faz presidente da Ucrânia recuar e retomar negociação com UE

Kiev é ocupada por 350 mil opositores que buscam derrubar Viktor Yanukovich, aliado de Moscou, que chegou a abandonar tratativas de adesão à União Europeia

O Estado de S. Paulo,

02 de dezembro de 2013 | 23h40

KIEV - Após centenas de milhares de ucranianos cercarem os principais prédios do governo em Kiev, o presidente Viktor Yanukovich retomou ontem as negociações sobre um pacto de adesão à União Europeia. Com a maior onda de protestos na Ucrânia desde a chamada "Revolução Laranja", de 2004, os manifestantes exigem a renúncia imediata de Yanukovich, após o líder - próximo da Rússia - ter encerrado o diálogo com Bruxelas.

Enquanto a oposição tentava conseguir os votos no Parlamento para derrubar o presidente, Yanukovich telefonou para o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, e pediu a reabertura das negociações. A medida busca acalmar os ânimos da população - estima-se que 350 mil ucranianos tenham tomado as ruas ontem.

A exemplo dos protestos na Ucrânia, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, foi recebido ontem na Armênia com manifestações - entre cartazes de "Putin, vá para casa" e "Não à URSS" - contra os planos de incluir o pequeno país do Sul do Cáucaso em uma zona de livre comércio sob a liderança de Moscou.

No lugar das cenas de violência registradas na Ucrânia, no sábado e no domingo, ontem a multidão, com bandeiras ucranianas e da UE, ocupou a região onde ficam as principais agências estatais, tentando paralisar o governo.

Cresciam os sinais de que os oligarcas - a poderosa elite econômica que ascendeu após o colapso da União Soviética - se voltaram contra Yanukovich ou, ao menos, tentam pressionar por uma mudança de rumo do governo. Meios de comunicação, que em princípio foram contra os protestos, também recuaram. Um dos principais líderes dos protestos, Yegor Sobolev, disse ter sido convidado para falar em um canal de TV de Rinat Akhmetov, o homem mais rico do país.

Ao menos três parlamentares governistas renunciaram. A oposição pretende derrubar o gabinete hoje no Parlamento. O grupo controla 170 dos 450 assentos, mas precisará de 226 votos - há 35 independentes inclinados a votar pela dissolução.

"Qualquer paz ruim é melhor do que uma boa guerra", disse Yanukovich no domingo, em seu primeiro discurso desde o início das manifestações. Em um sinal de confiança, ele anunciou que manterá os planos de viajar nos próximos dias para a China, onde buscará empréstimos para aliviar o endividamento ucraniano. O primeiro-ministro, Mykola Azarov, acusou a oposição de tentar tomar o prédio do Parlamento.

A base governista no Parlamento negou ontem que busque a imposição de um estado de emergência, no qual os manifestantes seriam obrigados pela polícia a deixar as ruas. "Esse tema não está sendo tratado", disse o presidente do Legislativo, Volodymyr Rybak.

No fim de semana, o chefe de polícia de Kiev, Valery Koryak, apresentou sua renúncia em meio a críticas à repressão policial. Nos últimos dias, multiplicam-se no YouTube vídeos de policiais espancando e atirando pedras contra manifestantes desarmados.

A decisão de Yanukovich de abandonar as negociações com a UE e buscar aproximar a Ucrânia da Rússia causou revolta em vários setores. Estão nas ruas desde grupos de centro-esquerda, que defendem a integração europeia, até partidos nacionalistas - alguns de extrema direita -, que repudiam qualquer tipo de influência russa no país, que já foi parte da URSS.

A polarização entre setores pró-Europa e pró-Rússia fez estourar a Revolução Laranja, em 2004, quando denúncias de fraude eleitoral obrigaram Yanukovich a deixar o poder, sendo substituído por Viktor Yushchenko, simpático a Bruxelas. Mas, em 2010, Yanukovich derrotou nas urnas a premiê de Yushchenko, Yulia Tymoshenko - atualmente na prisão.

Foram registrados protestos também em Lviv e Chernivtsi - cidades física e politicamente mais próximas da Europa Ocidental -, mas também em regiões do leste ucraniano, perto da Rússia. Na capital armênia, Yeravan, Putin disse que os protestos na Ucrânia são obra de "grupos muito bem preparados e treinados". / REUTERS, AP e NYT

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